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Hepatite B: os desafios do tratamento do vírus e a importância da vacinação

Entenda a complexidade da infecção crônica, os critérios para o uso de antivirais e o risco de reativação viral em pacientes imunossuprimidos

A Hepatite B é uma infecção viral que acomete o fígado e representa um importante desafio para a saúde pública global. Causada pelo vírus HBV, a doença se destaca por sua capacidade de evoluir de forma silenciosa no organismo. Atualmente, milhões de pessoas vivem com a infecção crônica sem apresentar sintomas, descobrindo o quadro apenas quando surgem severas complicações, como cirrose e carcinoma hepatocelular.

Na prática clínica,  o manejo da doença exige do profissional de saúde uma interpretação criteriosa dos marcadores sorológicos e da carga viral, além da avaliação do estágio da doença hepática para definir a necessidade de tratamento, o acompanhamento de longo prazo e a prevenção de complicações, como a reativação viral em pacientes imunossuprimidos.

Como ocorre a transmissão e quais são os sintomas?

O vírus da Hepatite B é altamente infectante e transmitido principalmente pelo contato com sangue e fluidos corporais contaminados. As principais vias incluem:

  • Relações sexuais sem uso de preservativo;
  • Compartilhamento de materiais perfurocortantes (agulhas, seringas, alicates de unha  e materiais utilizados em  tatuagens e piercings);
  • Transmissão vertical (da mãe infectada para o bebê durante a gestação ou parto).

Na fase aguda, a infecção costuma ser assintomática ou apresentar manifestações inespecíficas, como fadiga, mal-estar, dor abdominal e, em alguns casos, icterícia. O maior impacto clínico, entretanto, está na infecção crônica, em que a persistência da replicação viral pode levar, ao longo dos anos, à progressão da cirrose, fibrose hepática e carcinoma hepatocelular.

O desafio do diagnóstico e o dilema terapêutico

O diagnóstico preciso da Hepatite B depende da correlação de diferentes marcadores sorológicos, capazes de indicar se o paciente apresenta imunidade adquirida pela vacinação, infecção resolvida ou infecção ativa. Em situações específicas, como na hepatite B oculta ou em casos de difícil interpretação, a quantificação do HBV-DNA por biologia molecular é essencial para a definição diagnóstica e o acompanhamento clínico.

Um dos principais desafios na prática clínica é definir quais pacientes realmente se beneficiam  do tratamento antiviral. Diferentemente de outras infecções virais, a presença da infecção crônica não significa, necessariamente, indicação imediata para o uso de medicamentos.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde e as diretrizes da OMS estabelecem que a decisão deve considerar, de forma integrada:

  • Os níveis de enzimas hepáticas (como ALT e AST);
  • A quantidade de vírus circulante (carga viral);
  • O grau de fibrose ou a presença de cirrose.

Além desses parâmetros, fatores como idade, histórico familiar de carcinoma hepatocelular, coinfecções e outras condições clínicas também podem influenciar a decisão terapêutica, reforçando a necessidade de uma avaliação individualizada. 

O objetivo do tratamento é promover a supressão sustentada da replicação viral, reduzindo a inflamação hepática e o risco de progressão para cirrose, insuficiência hepática e carcinoma hepatocelular. Embora a cura funcional, caracterizada pela perda sustentada do HBsAg, possa ocorrer em uma pequena parcela dos pacientes, ela ainda é considerada um desfecho pouco frequente com as terapias atualmente disponíveis.

O perigo da reativação viral

Uma das complicações mais graves e frequentemente negligenciadas envolvendo o HBV é a reativação viral em pacientes que possuem infecção crônica ou evidências de infecção prévia com o vírus.

Esse cenário ocorre principalmente quando o paciente é submetido a terapias que alteram a resposta imunológica, como:

  • Quimioterapia para tratamentos oncológicos;
  • Uso de medicamentos imunossupressores ou biológicos para doenças reumatológicas, gastroenterológicas e autoimunes;
  • Terapias para prevenção de rejeição em transplantes.

Entre os medicamentos associados ao maior risco de reativação, destacam-se os agentes anti-CD20, como Rituximabe, além de determinados esquemas quimioterápicos e do uso prolongado de corticosteroides em doses imunossupressoras.

Ao reduzir a vigilância do sistema imunológico, o vírus pode voltar a se replicar de forma intensa, evoluindo para insuficiência hepática, hepatite aguda grave e óbito.

Por isso, o rastreio sorológico para Hepatite B é recomendado antes do início de terapias imunossupressoras. Nos casos indicados, a profilaxia antiviral deve ser iniciada previamente para reduzir o risco de reativação e garantir maior segurança ao paciente.

Vigilância para carcinoma hepatocelular

Mesmo em pacientes com adequada supressão viral, o risco de carcinoma hepatocelular pode persistir, especialmente naqueles com cirrose, fibrose avançada ou outros fatores de risco. Por isso, além do controle da replicação viral, o seguimento clínico e a vigilância periódica com exames de imagem, conforme recomendado pelas diretrizes, continuam sendo componentes fundamentais do manejo da Hepatite B crônica.

Vacinação como a principal linha de defesa contra o câncer

Apesar dos desafios relacionados ao manejo e ao tratamento, a Hepatite B é uma doença imunoprevenível. A vacina contra a Hepatite B é segura, altamente eficaz e está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas de todas as idades.

A imunização atua de duas formas essenciais: previne a infecção ao induzir uma resposta imunológica protetora e, consequentemente, reduz o risco de cronificação da doença e de desenvolvimento do carcinoma hepatocelular, sendo reconhecida como a primeira vacina capaz de prevenir diretamente um tipo de câncer.

A amplificação da cobertura vacinal, associada à identificação precoce dos indivíduos infectados e ao acompanhamento adequado dos casos crônicos, permanece como a estratégia mais efetiva para reduzir a transmissão do HBV e suas complicações em longo prazo.

Conteúdo complementar

Para aprofundar a discussão sobre a Hepatite B, ouça o episódio 198 do InfectoCast, conduzido pelos médicos infectologistas Dr. William Dunke, Dr. João Prats e Dr. Ayrton Silveira. 

Escrito por: Dr William Dunke

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Hepatite B e Coinfecções. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.

Organização Mundial da Saúde (OMS) WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines for the prevention, care and treatment of persons with chronic hepatitis B infection. Genebra: WHO, 2024.

Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Hepatite B: sintomas, transmissão e prevenção. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2022.

Ministério da Saúde (Guia de Vigilância em Saúde) BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6a edição. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.

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