Importância da vacinação contra arboviroses no Brasil
Nos últimos anos, houve aumento da cocirculação de diferentes arboviroses e expansão da Chikungunya para o Sul e Sudeste. Entretanto, essa circulação não apenas cresceu; o perfil epidemiológico dessas doenças, incluindo a necessidade de vacinação contra arboviroses, também se transformou.
Se antes essas infecções eram predominantemente sazonais, hoje observamos transmissão sustentada ao longo de todo o ano em diversas regiões. Mudanças climáticas e a adaptação do Aedes aegypti e do Haemagogus contribuíram para esse cenário, tornando a vacinação contra arboviroses ainda mais necessária.
Além disso, cidades historicamente frias, especialmente no Sul do Brasil, passaram a registrar infestações massivas, com populações de baixa imunidade prévia e maior risco de surtos explosivos de Febre Amarela e Chikungunya, ressaltando a urgência da vacinação contra arboviroses.
Manejo de riscos e contraindicações das vacina contra Febre Amarela
Embora seguras, as vacinas contra arboviroses, com destaque para a vacina contra a febre amarela, exigem avaliação clínica criteriosa antes da prescrição.Eventos adversos raros, mas graves:
- SARE (Doença Viscerotrópica Aguda): replicação sistêmica do vírus vacinal, mimetizando a doença selvagem.
- SANE (Doença Neurológica Aguda): inflamação do sistema nervoso central pós-vacinal.
Esses eventos são raros, mas devem ser considerados, especialmente em pacientes com histórico de doenças do timo.
Em pacientes acima de 60 anos não vacinados, a decisão deve ser individualizada, com análise rigorosa de risco-benefício.
O risco em imunocomprometidos e gestantes
Como se tratam de vacinas com vírus atenuado, há risco de replicação descontrolada em indivíduos com sistema imune comprometido.
Contraindicações absolutas incluem:
- Pacientes em quimioterapia ou radioterapia;
- Usuários de imunobiológicos;
- Transplantados de órgãos ou medula óssea;
- Gestantes (salvo em situações de altíssimo risco epidemiológico para febre amarela, sob análise médica)
Reações de hipersensibilidade: o que investigar na anamnese
Parte das vacinas é produzida em embriões de galinha ou em culturas celulares (como células Vero).
- Febre Amarela: cultivada em ovos embrionados de galinha. É mandatório investigar histórico de anafilaxia ao ovo.
- Chikungunya: a nova vacina (Ixchiq) é produzida em células Vero, isso elimina o risco relacionado à proteína do ovo, mas a investigação de alergias a outros componentes da fórmula (como aminoácidos e sais) permanece mandatória.
A anamnese segue sendo o principal instrumento de segurança vacinal.
Risco da vacina x risco da doença
Um dos principais papéis do médico na vacinação contra arboviroses é a desmistificação do risco.
A febre amarela possui letalidade que pode chegar a 50% em casos graves; a Chikungunya apresenta alta taxa de cronificação de dores articulares incapacitantes.
Ou seja, o risco das doenças é consistentemente superior ao risco vacinal.
Avanços em Chikungunya e Zika
Diferente do cenário anterior, agora contamos com a primeira vacina aprovada contra a Chikungunya (Ixchiq). Ela é uma vacina de dose única, indicada para adultos, que demonstrou altas taxas de soroconversão. O médico deve estar atento pois, por ser vírus vivo, o perfil de efeitos colaterais pode incluir mialgia e artralgia transitórias.
Quanto ao Zika, embora ainda não tenhamos uma vacina disponível comercialmente, as pesquisas avançaram para plataformas de DNA e mRNA e Partículas Semelhantes a Vírus.
O objetivo é criar uma vacina que não utilize vírus vivo,permitindo o uso seguro em gestantes para prevenir a síndrome da zika congênita e as malformações neurológicas.
A vacinação fora do surto
O papel do médico é antecipar-se ao ciclo sazonal. No caso da Febre Amarela, a imunidade leva cerca de 10 dias para se consolidar. No caso da Chikungunya, a dose única facilita a logística, mas a prescrição deve ocorrer idealmente nos períodos de baixa transmissão para garantir que o paciente esteja protegido antes da explosão de vetores no verão.
A vacinação contra arboviroses é também uma medida de sustentabilidade e economia do sistema de saúde. Ao reduzir complicações crônicas e hospitalizações, o médico contribui para que as unidades de emergência não entrem em colapso.
Conteúdo complementar
Para aprofundar a discussão sobre diferentes vacinas, diagnósticos, soluções e exceções, ouça o episódio 184 do Infectocast:
Referências
ANVISA. Consultas Públicas e Registros de Vacinas: Ixchiq (Chikungunya). Brasília, DF: Anvisa, 2024.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE IMUNIZAÇÕES (SBIm). Guia de Vacinação SBIm: Arboviroses (Febre Amarela, Chikungunya, Zika). São Paulo: SBIm, 2024/2025.

