O stewardship na era digital
Gerenciar o uso de antimicrobianos em um hospital gera uma quantidade enorme de dados: prescrições, resultados de exames, dados de consumo, indicadores. Fazer isso de forma manual, com papel e planilhas, é um trabalho hercúleo, ineficiente e sujeito a erros. Na era digital, a tecnologia da informação (TI) surge como a maior aliada para potencializar e automatizar as ações de um PGA em pediatria. Desde o prontuário eletrônico do paciente (PEP) até softwares especializados, as ferramentas digitais podem transformar um programa de stewardship reativo em um programa proativo, inteligente e muito mais eficaz. Vamos explorar como a tecnologia PGA pediatria pode revolucionar o seu programa.
O Prontuário Eletrônico (PEP): A Base de Tudo
Um Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) bem estruturado é a fundação de um PGA digital. Ele não é apenas um repositório de informações, mas uma ferramenta ativa de stewardship.
1. Suporte à Prescrição
- Padronização: O PEP pode ser configurado para oferecer “combos” de prescrição baseados nos protocolos do hospital. Ao selecionar “Pneumonia Comunitária Pediátrica”, o sistema já sugere a dose correta de amoxicilina para o peso do paciente e a duração padrão de 5 dias.
- Calculadoras Integradas: Integrar calculadoras de dose por peso e de ajuste para a função renal (clearance de creatinina) diretamente na tela de prescrição reduz drasticamente os erros de cálculo.
- Alertas em Tempo Real: O sistema pode gerar alertas automáticos para:
- Duplicidade Terapêutica: “Atenção: paciente já está em uso de outro antibiótico com cobertura para anaeróbios”.
- Interações Medicamentosas: “Atenção: a quinolona pode interagir com o anticonvulsivante em uso”.
- Alergias: Um alerta em tela cheia se o médico tentar prescrever um medicamento ao qual o paciente é alérgico.
2. Suporte à Decisão Clínica
- Acesso Fácil aos Dados: O PEP permite visualizar de forma integrada a curva de temperatura, a evolução dos exames laboratoriais (leucograma, PCR) e os resultados da microbiologia, facilitando a decisão no timeout de 48h.
- Links para Protocolos: Inserir um link direto para o protocolo completo de tratamento ao lado da prescrição, para consulta rápida.
Sistemas de Suporte à Decisão Clínica (CDSS)
Os Clinical Decision Support Systems (CDSS) são softwares, muitas vezes acoplados ao PEP, que usam algoritmos para analisar os dados do paciente em tempo real e fornecer recomendações de stewardship.
- Vigilância Automatizada: Em vez de o farmacêutico ter que procurar manualmente os pacientes-alvo, o CDSS pode gerar listas automáticas de:
- Pacientes em uso de antibióticos de amplo espectro por mais de 48h (candidatos ao timeout).
- Pacientes com cultura positiva e antibiótico não otimizado (candidatos ao descalonamento).
- Pacientes com disfunção renal e antibiótico sem ajuste de dose.
- Antibiograma Inteligente: Alguns sistemas podem apresentar o resultado do antibiograma de forma mais inteligente, mostrando não apenas os resultados de sensibilidade, mas também destacando as opções de espectro mais estreito e o custo de cada tratamento.
Softwares de Gestão de PGA
Existem no mercado plataformas de software dedicadas exclusivamente à gestão de programas de stewardship. Elas integram dados do PEP, do laboratório e da farmácia para fornecer uma visão completa.
- Cálculo Automático de Indicadores: Essas plataformas calculam automaticamente o DOT, o LOT e outros indicadores de consumo, gerando dashboards e relatórios em tempo real.
- Documentação de Intervenções: Oferecem um módulo para o farmacêutico documentar suas intervenções de auditoria prospectiva (usando a ferramenta PRAT, por exemplo) e medir as taxas de aceitação.
- Benchmarking: Muitas plataformas permitem a comparação anônima dos seus indicadores com os de outros hospitais na mesma rede, fornecendo um poderoso benchmark.
O Desafio da Implementação
Apesar das vantagens óbvias, a implementação da tecnologia PGA pediatria enfrenta desafios:
- Custo: A aquisição e a manutenção desses sistemas podem ser caras.
- Interoperabilidade: O maior desafio é fazer com que os diferentes sistemas do hospital (PEP, sistema da farmácia, sistema do laboratório) “conversem” entre si e troquem dados de forma fluida.
- Customização: Os sistemas precisam ser customizados para a realidade do hospital, com a inserção dos protocolos locais e das regras de alerta.
- Fadiga de Alertas: Um excesso de alertas irrelevantes pode levar os médicos a ignorarem todos eles. Os alertas precisam ser inteligentes e específicos.
O Futuro é Digital e Integrado
A tecnologia da informação não substitui o raciocínio clínico do time de PGA, mas o potencializa de forma exponencial. Ela automatiza tarefas repetitivas, organiza a informação, fornece dados para a tomada de decisão e cria barreiras de segurança contra erros. O futuro do PGA em pediatria é, sem dúvida, digital e integrado. A colaboração estreita entre a equipe de PGA e o departamento de TI do hospital é o caminho para construir um programa de stewardship mais inteligente, seguro e eficiente, onde a informação certa chega para a pessoa certa, na hora certa.
Como o prontuário eletrônico do seu hospital ajuda (ou atrapalha) o seu PGA? Converse com a equipe de TI sobre a possibilidade de criar um alerta simples, como o de duplicidade terapêutica. Explore as funcionalidades do seu sistema que talvez não estejam sendo utilizadas. E compartilhe este guia para mostrar à sua gestão o imenso potencial da tecnologia para otimizar o uso de antimicrobianos.
Referências
[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.




