Da euforia inicial à maratona da excelência
Conseguir o apoio da diretoria, montar uma equipe e implementar as primeiras ações de um Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos (PGA) em pediatria gera uma onda de entusiasmo. Os primeiros resultados aparecem, o consumo de carbapenêmicos cai, e a equipe se sente vitoriosa. Mas o que acontece depois de um, dois ou cinco anos? Como garantir que o programa não perca o fôlego? Como manter a equipe engajada e os resultados consistentes? A sustentabilidade do PGA é o desafio de transformar um projeto com início, meio e fim em um processo de melhoria contínua, uma parte integrante e permanente da cultura da instituição. É a transição da corrida de 100 metros para a maratona da excelência.
Os Pilares da Sustentabilidade do PGA
A sustentabilidade do PGA em pediatria se apoia em alguns pilares fundamentais que precisam ser cultivados continuamente.
1. Apoio Institucional Contínuo
O apoio da alta gestão não pode ser apenas para o pontapé inicial. Ele precisa ser renovado e reforçado.
- Reporte de Resultados: O time do PGA deve, regular e proativamente, apresentar os resultados do programa para a diretoria. Mostre os gráficos de DOT, as taxas de resistência, a economia gerada. Mostrar valor é a melhor forma de garantir a continuidade do investimento (especialmente em recursos humanos).
- Alinhamento com as Metas Estratégicas: Enquadre o PGA como uma iniciativa estratégica para o hospital, ligada à segurança do paciente, à qualidade assistencial e à acreditação hospitalar. O PGA não é um “programa da farmácia” ou “da infecto”, é um programa do hospital.
2. Engajamento da Equipe da Linha de Frente
Com o tempo, as equipes podem desenvolver “fadiga de stewardship”. Manter o engajamento é crucial.
- Celebre as Vitórias: Atingiram a meta de redução de vancomicina na UTIN? Celebre! Divulgue o resultado, agradeça publicamente a equipe da unidade pelo esforço. O reconhecimento é um poderoso motivador.
- Renove os “Champions”: Os médicos e enfermeiros “campeões” do PGA, que são seus aliados nas unidades, podem mudar de função ou de hospital. É preciso estar sempre identificando e cultivando novas lideranças locais.
- Varie as Estratégias Educativas: Não faça o mesmo tipo de aula ou campanha todos anos. Inove. Use simulações, gamificação, competições amigáveis entre unidades. A novidade quebra a monotonia.
3. Rotação e Evolução das Metas
Um programa que foca nos mesmos problemas por anos se torna obsoleto.
- Suba a Barra: A meta inicial era reduzir o consumo de meropenem. Vocês conseguiram e o consumo está estável há um ano. Ótimo! Qual é o próximo desafio? Talvez seja otimizar a duração da terapia para pneumonia ou melhorar a profilaxia cirúrgica. Um PGA sustentável está sempre procurando o próximo nível de excelência.
- Monitore o “Efeito Balão”: Às vezes, ao focar em reduzir o uso de um antibiótico (ex: meropenem), o consumo de outro (ex: piperacilina-tazobactam) pode aumentar de forma compensatória. É preciso monitorar um painel amplo de indicadores para garantir que a pressão em um ponto não está criando um problema em outro.
4. Integração e Incorporação na Cultura
O objetivo final da sustentabilidade é que o stewardship deixe de ser um “programa” e se torne “a forma como fazemos as coisas aqui”.
- Integração com a Formação: Tornar o rodízio no PGA parte obrigatória da residência de pediatria. Incluir aulas sobre uso racional de antimicrobianos na integração de todos os novos funcionários.
- Integração com a Tecnologia: Automatizar o máximo de processos possível. Alertas no prontuário eletrônico, protocolos integrados e cálculo automático de indicadores garantem que as boas práticas continuem mesmo que as pessoas mudem.
- Incorporação nos Processos de Qualidade: Incluir os indicadores do PGA nos relatórios de qualidade e segurança do hospital, ao lado de indicadores como queda de pacientes e lesão por pressão.
O Ciclo da Sustentabilidade: Medir, Agir, Repetir
A sustentabilidade não é um estado passivo, é um ciclo ativo de melhoria contínua (o famoso ciclo PDCA – Planejar, Fazer, Checar, Agir).
- Checar (Check): Monitore continuamente seus indicadores. Onde estamos?
- Agir (Act): Os resultados estão bons? Mantenha as ações. Os resultados estão piorando ou estagnados? Identifique a causa.
- Planejar (Plan): Defina uma nova meta ou uma nova intervenção para atacar o problema identificado.
- Fazer (Do): Implemente a nova ação.
- Repetir: O ciclo recomeça, indefinidamente.
O Legado de uma Cultura de Cuidado
A sustentabilidade do PGA é o que diferencia uma iniciativa pontual de um legado duradouro. Ela exige visão de longo prazo, capacidade de adaptação e uma comunicação incessante sobre a importância e o valor do programa. Um PGA sustentável é aquele que sobrevive à troca de diretores, de chefias e dos próprios membros do time, porque seus princípios foram tão profundamente arraigados na cultura da instituição que se tornaram parte do seu DNA. É a garantia de que a luta pelo uso racional de antimicrobianos e pela segurança do paciente pediátrico continuará, dia após dia, ano após ano.
Como está o “fôlego” do seu PGA? Reavalie suas metas para o próximo ano. Pense em uma nova estratégia para reengajar uma unidade que já não responde como antes. E compartilhe este guia com sua liderança para mostrar que o sucesso de um PGA não se mede em meses, mas em anos de resultados consistentes.
Referências
[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.




