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PGA em cardiopatias congênitas: protegendo o coração

O PGA em pediatria, quando aplicado a esses pacientes, tem um foco muito direcionado: otimizar a profilaxia cirúrgica e educar sobre a prevenção da endocardite. É um trabalho de precisão para proteger o órgão mais vital.

Um coração que exige cuidados especiais

As crianças com cardiopatias congênitas formam um grupo de pacientes com vulnerabilidades únicas. As anomalias estruturais do coração e dos grandes vasos, e as cirurgias corretivas a que são submetidas, as colocam em um risco aumentado para dois tipos específicos de infecção: a infecção do sítio cirúrgico após a correção cirúrgica e a endocardite infecciosa, uma infecção grave do revestimento interno do coração. O PGA em pediatria, quando aplicado a esses pacientes, tem um foco muito direcionado: otimizar a profilaxia cirúrgica e educar sobre a prevenção da endocardite. É um trabalho de precisão para proteger o órgão mais vital.

Profilaxia Cirúrgica em Cirurgia Cardíaca Pediátrica

A cirurgia cardíaca pediátrica, especialmente as que envolvem a abertura do esterno (esternotomia) e o uso de circulação extracorpórea, é um procedimento de grande porte e com risco significativo de infecção do sítio cirúrgico, incluindo a temida mediastinite. Portanto, a profilaxia cirúrgica é sempre indicada.

Os Princípios da Profilaxia

Seguimos os mesmos princípios da profilaxia cirúrgica geral, mas com algumas particularidades:

  1. O Antibiótico Certo: A Cefazolina (uma cefalosporina de 1ª geração) é o antibiótico de escolha. Ela tem excelente cobertura contra os principais patógenos da pele (S. aureus e S. epidermidis). Em hospitais com alta incidência de MRSA, a adição de Vancomicina à Cefazolina pode ser considerada, mas não deve ser a prática padrão.
  1. A Hora Certa: A Cefazolina deve ser administrada nos 60 minutos antes da incisão. A dose deve ser repetida no intraoperatório (repique) se a cirurgia for muito longa (geralmente > 4 horas) ou se houver grande perda sanguínea, pois a circulação extracorpórea pode alterar a farmacocinética do antibiótico.
  1. A Duração Certa: Este é o ponto de maior controvérsia e onde o PGA em pediatria mais atua. Historicamente, mantinha-se o antibiótico por 48 a 72 horas após a cirurgia. No entanto, as evidências mais recentes e as diretrizes de grandes sociedades (como a Society of Thoracic Surgeons) recomendam que a profilaxia não exceda 24 horas no pós-operatório. Manter o antibiótico por mais tempo não demonstrou reduzir a taxa de infecção e apenas aumenta o risco de resistência e efeitos colaterais.

A Prevenção da Endocardite Infecciosa: Uma Mudança de Paradigma

A endocardite infecciosa (EI) é uma infecção das válvulas cardíacas ou do endocárdio, geralmente causada por bactérias que entram na corrente sanguínea (bacteremia) e se aderem a uma área de lesão no coração. Por muito tempo, acreditou-se que procedimentos dentários eram a principal causa de bacteremia e, portanto, a profilaxia antibiótica antes de ir ao dentista era recomendada para um grande número de pacientes com cardiopatias.

A Restrição das Indicações

Nos últimos anos, houve uma grande mudança de paradigma. Estudos mostraram que a bacteremia por atividades do dia a dia (como escovar os dentes ou mastigar) é muito mais frequente do que a causada por um procedimento dentário. Além disso, não havia evidências claras de que a profilaxia realmente prevenia a EI. Com isso, as diretrizes (incluindo as da American Heart Association) restringiram drasticamente as indicações de profilaxia para EI.

Quem Realmente Precisa de Profilaxia para Endocardite Hoje?

A profilaxia antibiótica antes de procedimentos dentários de risco é recomendada apenas para o grupo de pacientes com o mais alto risco de desenvolver EI e de ter um desfecho grave. São eles:

  1. Pacientes com válvula cardíaca protética ou material protético usado para reparo de válvula.
  2. Pacientes com história prévia de endocardite infecciosa.
  3. Pacientes com cardiopatia congênita cianótica não reparada ou com shunts e condutos paliativos.
  4. Pacientes com cardiopatia congênita completamente reparada com material protético, mas apenas nos primeiros 6 meses após o procedimento.
  5. Pacientes com cardiopatia congênita reparada, mas com defeitos residuais no local de um patch ou dispositivo protético.
  6. Receptores de transplante cardíaco que desenvolvem valvulopatia.

Atenção: Pacientes com condições muito comuns, como comunicação interatrial (CIA), comunicação interventricular (CIV) pequena ou prolapso de valva mitral, NÃO têm mais indicação de profilaxia.

Como Fazer a Profilaxia (Quando Indicada)?

  • Para Quais Procedimentos? A profilaxia é indicada para todos os procedimentos dentários que envolvam a manipulação da gengiva ou da região periapical dos dentes ou a perfuração da mucosa oral.
  • Qual Antibiótico? A Amoxicilina, em dose única (50 mg/kg), 1 hora antes do procedimento, é a droga de escolha. Para alérgicos, a Clindamicina é a alternativa.

O Papel Central da Higiene Bucal

Se a profilaxia antibiótica foi tão restringida, qual é a principal forma de prevenção da EI? A resposta é unânime: uma excelente higiene bucal. Manter dentes e gengivas saudáveis diminui a carga bacteriana na boca e a frequência e intensidade das bacteremias do dia a dia. A orientação sobre a escovação regular e as visitas periódicas ao dentista é a medida preventiva mais importante que o cardiologista e o pediatra podem oferecer a esses pacientes.

Foco na Prevenção de Alto Impacto

O PGA em pediatria voltado para a criança com cardiopatia congênita é um exemplo de stewardship focado e preciso. As duas grandes metas são: garantir que a profilaxia na cirurgia cardíaca seja curta (não mais que 24 horas) e garantir que a profilaxia para endocardite seja feita apenas para o pequeno grupo de pacientes de altíssimo risco, evitando o uso desnecessário de antibióticos na grande maioria. Acima de tudo, o programa deve reforçar que a melhor prevenção para a endocardite não está em um comprimido de amoxicilina, mas em uma boa escova de dentes.

Seu hospital tem um protocolo de profilaxia para cirurgia cardíaca pediátrica que limita a duração a 24 horas? Discuta com a equipe de cardiologia a lista de pacientes que realmente necessitam de profilaxia para endocardite. E crie um material educativo para as famílias sobre a importância da saúde bucal. Compartilhe este guia para alinhar as práticas do seu serviço com as diretrizes mais atuais.

Referências

[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.

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