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Mycobacterium leprae:

O Mycobacterium leprae é um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR) de crescimento extremamente lento, responsável pela hanseníase (doença de Hansen). Trata-se de uma doença crônica, progressiva e estigmatizante, que afeta pele, nervos periféricos, olhos e mucosas respiratórias. A hanseníase é endêmica no Brasil, Índia e Indonésia, que juntos representam 80% dos casos globais. No Brasil, a hanseníase ainda é um problema de saúde pública, especialmente em estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

O Mycobacterium leprae é um bacilo álcool-ácido resistente (BAAR) de crescimento extremamente lento, responsável pela hanseníase (doença de Hansen). Trata-se de uma doença crônica, progressiva e estigmatizante, que afeta pele, nervos periféricos, olhos e mucosas respiratórias.

A hanseníase é endêmica no Brasil, Índia e Indonésia, que juntos representam 80% dos casos globais. No Brasil, a hanseníase ainda é um problema de saúde pública, especialmente em estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Microbiologia

  • Bacilo álcool-ácido resistente, pleomórfico e intracelular obrigatório.
  • Tempo de duplicação extremamente lento (~2 semanas).
  • Não cultivável em meios artificiais, sendo propagado experimentalmente em tatus e camundongos imunossuprimidos.
  • Duas espécies conhecidas:
    • M. leprae (clássico).
    • M. lepromatosis (recentemente identificado, associado à hanseníase difusa).

Transmissão

  • Contato prolongado com secreções respiratórias de pacientes com hanseníase multibacilar.
  • Armadilhos podem ser reservatórios naturais e fonte zoonótica, especialmente no sul dos EUA.

Epidemiologia

  • Casos globais em 2009: 213.036 (provavelmente subestimados devido à subnotificação).
  • Casos nos EUA (2020): 159, concentrados em Flórida, Califórnia, Louisiana, Texas, Nova York e Havaí.
  • Populações de risco:
    • Contatos domiciliares de pacientes multibacilares.
    • Indivíduos imunocomprometidos.
    • Populações pobres e com acesso limitado ao sistema de saúde.

Período de Incubação

  • Média: 2-5 anos.
  • Pode variar de alguns meses até mais de uma década.

Manifestações Clínicas

As apresentações clínicas da hanseníase dependem da resposta imune celular do hospedeiro. A classificação de Ridley-Jopling define 5 formas da doença:

Forma ClínicaDescriçãoEnvolvimento NeurológicoCarga BacilarTeste de Lepromina
Tuberculoide (TT)Lesões únicas ou poucas, bem delimitadas, anestésicasComumRara ou ausenteFortemente positivo
Borderline Tuberculoide (BT)Lesões mais numerosas, semelhantes ao TTComumBaixaPositivo
Borderline (BB)Lesões moderadas, algumas satélitesFrequenteModeradaNegativo ou fraco
Borderline Lepromatosa (BL)Múltiplas lesões, semelhantes ao BBAlgumas fibras nervosas afetadasAltaNegativo
Lepromatosa (LL)Múltiplas lesões simétricas, com infiltração difusaNenhuma no início; comprometimento tardio severoMuito altaNegativo

Sinais Cardinais da Hanseníase

  1. Lesões cutâneas (hipopigmentadas ou eritematosas) com perda de sensibilidade.
  2. Espessamento de nervos periféricos (ex.: nervo auricular grande).
  3. Baciloscopia positiva para BAAR.

Outras Manifestações

  • Neuropatia periférica: perda sensorial, fraqueza muscular, atrofia e deformidades como “mão em garra” e “pé caído”.
  • Lesões oculares: iridociclite, ceratite e cegueira.
  • Comprometimento do trato respiratório superior: perfuração do septo nasal (deformidade “nariz em sela”).
  • Glomerulonefrite e amiloidose: em casos avançados.

Diagnóstico

1. Baciloscopia

  • Coloração de Fite-Faraco: pesquisa de BAAR em raspado dérmico.
  • Índice baciloscópico (IB): avalia carga bacilar (0 a +6).

2. Histopatologia

  • Fite-Faraco: bacilos em macrófagos em hanseníase lepromatosa.
  • Granulomas epitelioides bem formados na forma tuberculoide.

3. PCR

  • Alta sensibilidade para detecção de DNA de M. leprae.
  • Pode ser útil na hanseníase indeterminada.

4. Teste de Lepromina

  • Positivo em formas tuberculoides.
  • Negativo em formas lepromatosas.

Tratamento

Sempre utilizar terapia combinada para prevenir resistência antimicrobiana.

1. Hanseníase Paucibacilar (PB) (1-5 lesões, IB negativo)

  • Duração: 6 meses.
  • Esquema OMS:
    • Rifampicina 600 mg VO 1x/mês.
    • Dapsona 100 mg VO/dia.
    • Clofazimina 50 mg VO/dia + 300 mg/mês.
  • Esquema NHDP (EUA):
    • Rifampina 600 mg/dia + Dapsona 100 mg/dia por 12 meses.

2. Hanseníase Multibacilar (MB) (>5 lesões, IB positivo)

  • Duração: 12 meses (OMS) ou 24 meses (NHDP).
  • Esquema OMS:
    • Rifampicina 600 mg VO 1x/mês.
    • Dapsona 100 mg VO/dia.
    • Clofazimina 50 mg VO/dia + 300 mg/mês.
  • Esquema NHDP (EUA):
    • Rifampina 600 mg/dia + Dapsona 100 mg/dia + Clofazimina 50 mg/dia por 24 meses.
  • Alternativas para Rifampicina-Resistência:
    • Claritromicina 500 mg/dia + Minociclina 100 mg/dia + Clofazimina 50 mg/dia por 18 meses.

Reações Imunológicas na Hanseníase

1. Reação Tipo 1 (Reação Reversa)

  • Exacerbação da resposta Th1 com inflamação em lesões preexistentes.
  • Tratamento: Prednisona 40-60 mg/dia (tapering lento).

2. Erythema Nodosum Leprosum (ENL, Reação Tipo 2)

  • Imunocomplexos circulantes (Th2) → febre, nodulação dolorosa, artrite, orquite.
  • Tratamento:
    • Prednisona 40-60 mg/dia por pelo menos 12 semanas.
    • Clofazimina 100 mg 3x/dia por 12 semanas.
    • Talidomida 100-400 mg/dia (exceto em mulheres em idade fértil).

Prevenção e Controle

  • BCG confere proteção parcial contra hanseníase (~60%).
  • Profilaxia para contatos domiciliares:
    • Dose única de rifampicina de 600 mg reduz risco de hanseníase em 57% em 2 anos.

Conclusão

O Mycobacterium leprae continua sendo um desafio global de saúde pública. O tratamento multidroga por períodos prolongados é essencial, e a detecção precoce pode reduzir sequelas neurológicas irreversíveis. A profilaxia em contatos domiciliares pode ajudar a reduzir a incidência da doença.

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Referências

  1. World Health Organization. Guidelines for the diagnosis, treatment and prevention of leprosy. WHO, 2018.
  2. Franco-Paredes C, Garcia-Creighton E, Henao-Martínez AF, et al. Novel approaches in the treatment of Hansen’s disease (Leprosy). Ther Adv Infect Dis. 2022. [PMID:36387060].
  3. Truman RW, Singh P, Sharma R, et al. Probable zoonotic leprosy in the southern United States. N Engl J Med. 2011. [PMID:21524213].

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