O Mycobacterium chelonae é uma micobactéria não tuberculosa (MNT) de crescimento rápido, frequentemente encontrada no meio ambiente, incluindo água potável, solo e matéria orgânica. Embora possa ser um contaminante ambiental, também pode causar infecções cutâneas, oculares, ósseas e de tecidos moles, além de infecções disseminadas em pacientes imunossuprimidos.
Antes de 1992, M. chelonae era agrupado com M. abscessus, mas desde então foi classificado como uma espécie distinta devido a diferenças genéticas e padrões de resistência antimicrobiana.
Microbiologia
- Bacilo Gram-positivo álcool-ácido resistente (BAAR).
- Crescimento rápido (em 3-7 dias) em meios como 7H10, 7H11 e Löwenstein-Jensen.
- Ótima temperatura de crescimento: 30-32°C.
- Resistência antimicrobiana imprevisível, necessitando testes de suscetibilidade.
Diferenciação de M. abscessus
- Ambos pertencem ao grupo de micobactérias de crescimento rápido (RGM, Runyon IV).
- M. chelonae é mais sensível a claritromicina e é menos virulento.
- M. abscessus apresenta maior resistência a antibióticos e frequentemente requer terapia combinada.
Epidemiologia e Fatores de Risco
- Distribuição ubíqua no meio ambiente (água, solos, equipamentos hospitalares).
- Fatores predisponentes:
- Imunossupressão (corticoides, quimioterapia, transplantes).
- Cirurgias estéticas e procedimentos minimamente invasivos (lipoaspiração, tatuagens, botox).
- Uso prolongado de cateter venoso central e diálise peritoneal.
- Cirurgias oculares (LASIK, implante de lentes intraoculares).
Manifestações Clínicas
1. Infecções de Pele e Tecidos Moles
- Lesões nodulares ulceradas ou abscessos.
- Infecções pós-operatórias em cirurgias plásticas (lipoaspiração, biomesoterapia).
- Infecções associadas a tatuagens contaminadas.
- Pode evoluir para celulite crônica ou lesões múltiplas.
2. Infecções Oculares
- Queratite pós-cirurgia refrativa (LASIK, catarata).
- Endoftalmite após procedimentos intra-oculares.
- Padrão “vidro trincado” no exame à lâmpada de fenda.
3. Infecções Ósseas e Articulares
- Osteomielite após fraturas expostas ou implantes ortopédicos.
- Artrite séptica associada a próteses articulares.
4. Infecções Pulmonares
- Raro como patógeno pulmonar primário (diferente de M. abscessus).
- Pode ser achado incidental em pacientes com bronquiectasias.
5. Infecções Disseminadas
- Mais comum em pacientes imunossuprimidos.
- Bacteremia associada a cateter venoso central.
- Lesões cutâneas múltiplas e abscessos profundos.
6. Endocardite
- Pode ocorrer em próteses valvares ou nativas.
- Associada a taxa de mortalidade elevada.
Diagnóstico
1. Cultura e Identificação
- Cresce rapidamente em 3-7 dias em meios seletivos.
- Diferenciar de M. abscessus por PCR e MALDI-TOF.
2. Exames de Imagem
- TC e RM são úteis para avaliar osteomielite e abscessos profundos.
3. Testes de Suscetibilidade
- Obrigatório para guiar o tratamento, devido à resistência antimicrobiana variável.
Tratamento
O tratamento depende do local da infecção e do status imunológico do paciente.
1. Infecções Localizadas (Pele e Tecidos Moles)
- Monoterapia com claritromicina 500 mg VO 2x/dia.
- Alternativas:
- Azitromicina 500 mg VO/dia.
- Linezolida 600 mg VO 2x/dia (para cepas resistentes).
2. Infecções Graves ou Disseminadas
- Claritromicina 500 mg VO 2x/dia + um dos seguintes:
- Imipenem 500 mg IV a cada 6h.
- Tobramicina 5 mg/kg IV/dia.
- Linezolida 600 mg IV/VO 2x/dia.
- Moxifloxacino 400 mg VO/dia.
- Duração do tratamento:
- Infecções cutâneas/localizadas: 3-6 meses.
- Infecções disseminadas: ≥ 6 meses.
- Osteomielite/endocardite: ≥ 12 meses.
3. Infecções Oculares
- Claritromicina 500 mg VO 2x/dia + colírios antimicrobianos:
- Moxifloxacino 0,5% 1 gota a cada 4h.
- Tobramicina 0,3% 1 gota a cada 4h.
- Evitar corticoides oftálmicos, pois podem piorar a infecção.
Resistência Antimicrobiana
- Claritromicina é a droga mais ativa, mas pode ocorrer resistência adquirida.
- Resistência a fluoroquinolonas e aminoglicosídeos é variável.
- Cefoxitina e tigeciclina geralmente não são eficazes.
Prevenção e Controle
- Monitoramento rigoroso em hospitais para evitar surtos.
- Uso adequado de desinfetantes e controle de qualidade em tatuagens e cosméticos.
- Evitar a reutilização de soluções contaminadas em clínicas médicas.
Conclusão
O Mycobacterium chelonae é um patógeno oportunista, frequentemente encontrado em infecções cutâneas e pós-cirúrgicas. Seu tratamento requer terapia combinada de longa duração, com claritromicina sendo a base da terapia. O diagnóstico precoce e o teste de suscetibilidade antimicrobiana são fundamentais para o sucesso terapêutico.
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