O Mycobacterium avium complex (MAC) é composto principalmente por Mycobacterium avium e Mycobacterium intracellulare, sendo uma das principais causas de infecções pulmonares por micobactérias não tuberculosas (MNT) nos Estados Unidos e no mundo. Essas bactérias são ubíquas no meio ambiente, especialmente em água e solo, e afetam predominantemente pacientes com doença pulmonar crônica, bronquiectasias e imunossupressão.
O MAC pode se manifestar de forma pulmonar crônica, disseminada ou como infecção localizada em linfonodos, ossos e tecidos moles.
Microbiologia e Patogênese
- Mycobacterium avium: mais associado a doenças disseminadas em imunossuprimidos.
- Mycobacterium intracellulare: mais frequentemente causa doença pulmonar crônica.
- M. chimaera (subespécie do MAC): recentemente associada a infecções pós-cirúrgicas.
O MAC é ácido-álcool resistente, de crescimento lento (10-21 dias em meios sólidos), e não é transmissível de pessoa para pessoa.
Fatores de Risco
- Doença pulmonar crônica (DPOC, fibrose cística, bronquiectasias).
- Síndrome de Lady Windermere (infecção em mulheres idosas, não fumantes, com clearance mucociliar deficiente).
- Imunossupressão (uso de corticoides, transplantes, deficiência de IFN-γ ou IL-12).
- Exposição a aerossóis contaminados (águas de chuveiro, spas, aquecedores de água).
Manifestações Clínicas
1. Doença Pulmonar por MAC
O MAC causa três padrões principais de infecção pulmonar:
- Doença Nodular-Bronquiectática (não cavitária)
- Bronquiectasias e nódulos múltiplos na TC de tórax.
- Predomina em mulheres idosas.
- Progressão lenta, sintomas leves, com tosse crônica e fadiga.
- Doença Cavitária (fibrocavitaria)
- Padrão semelhante à tuberculose, afetando lobos superiores.
- Mais comum em homens fumantes com DPOC.
- Progressão rápida, podendo levar à insuficiência respiratória.
- Doença Pulmonar Hipersensibilidade (Hot Tub Lung)
- Inalação repetida de aerossóis contaminados.
- Pneumonite intersticial e granulomatosa.
- Apresenta-se com febre, tosse e hipoxemia.
2. Infecções Extrapulmonares
- Linfadenite cervical (mais comum em crianças).
- Infecção de pele e partes moles (traumas ou procedimentos estéticos).
- Doença disseminada:
- Mais frequente em imunossuprimidos, especialmente pacientes com leucemia de células pilosas ou deficiências de IFN-γ.
- Manifesta-se como febre persistente, hepatoesplenomegalia, anemia e linfadenopatia.
Diagnóstico
1. Critérios da ATS/IDSA para Doença Pulmonar por MAC (2020)
Para diagnóstico, todos os critérios devem ser atendidos:
- Clínico: sintomas respiratórios persistentes (tosse, febre, fadiga, perda de peso).
- Radiológico:
- TC de tórax com bronquiectasias nodulares ou cavitações.
- Microbiológico:
- Duas culturas de escarro positivas para MAC OU.
- Uma cultura positiva de lavado broncoalveolar OU.
- Biópsia pulmonar com granulomas + cultura positiva.
2. Testes de Suscetibilidade
- Macrolídeos (azitromicina, claritromicina): essenciais para guiar a terapia.
- Amicacina: usada em casos resistentes.
Tratamento
O tratamento deve ser prolongado e guiado pela gravidade da doença.
1. Doença Nodular-Bronquiectática (não cavitária)
- Azitromicina 500 mg VO 3x/semana OU Claritromicina 500 mg VO 2x/dia 3x/semana.
- Etambutol 25 mg/kg VO 3x/semana.
- Rifampicina 600 mg VO 3x/semana.
Não usar monoterapia com macrolídeos (risco de resistência).
2. Doença Cavitária / Fibrocavitaria (severa)
- Azitromicina 500 mg/dia OU Claritromicina 500 mg 2x/dia.
- Etambutol 15 mg/kg/dia.
- Rifampicina 600 mg/dia.
- Amicacina IV (10-15 mg/kg/dia) nos primeiros 2-3 meses.
3. Infecções Extrapulmonares
- Linfadenite: tratamento cirúrgico, associado a macrolídeos e rifampicina.
- Doença disseminada:
- Azitromicina + Rifabutina + Etambutol.
- Amicacina IV em casos graves.
Macrolídeo-Resistência no MAC
- Macrolídeos são a base do tratamento.
- Se resistência confirmada:
- Amicacina + Rifampicina + Etambutol.
- Sulfametoxazol-trimetoprim (TMP-SMX) e Linezolida podem ser considerados.
- Cirurgia pulmonar pode ser necessária em doenças localizadas.
Duração do Tratamento
- ≥ 12 meses após cultura negativa.
- Monitoramento com culturas de escarro a cada 4-8 semanas.
Terapias Adjuvantes
- Fisioterapia respiratória e higiene brônquica (dispositivos oscilatórios, β2-agonistas inalatórios).
- Amicacina lipossomal inalatória (ALIS, 590 mg/dia) para casos refratários.
Prevenção e Controle
- Evitar fontes de exposição: água de torneiras e aerossóis contaminados.
- Tratamento de comorbidades pulmonares subjacentes.
Conclusão
O Mycobacterium avium complex é um patógeno significativo em pacientes com doenças pulmonares crônicas e imunossuprimidos. O tratamento multifarmacológico prolongado é essencial, e a resistência aos macrolídeos complica o manejo clínico. A abordagem deve ser personalizada, considerando a gravidade da doença e resposta ao tratamento.
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Referências
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- Olivier KN, Griffith DE, Eagle G, et al. Randomized Trial of Liposomal Amikacin for Inhalation in Nontuberculous Mycobacterial Lung Disease. Am J Respir Crit Care Med. 2017;195(6):814-823. [PMID:27748623].




