A Listeria monocytogenes é um bacilo Gram-positivo não formador de esporos, amplamente distribuído no meio ambiente e em produtos alimentares. Trata-se de um patógeno oportunista que pode causar desde gastroenterite autolimitada até infecções graves e invasivas como meningite e bacteremia, especialmente em gestantes, neonatos, idosos e imunocomprometidos.
A mortalidade da listeriose invasiva pode chegar a 20-45%, dependendo da condição do paciente e do sítio de infecção.
Microbiologia e Patogênese
- Gram-positivo, pequeno e pleomórfico.
- Beta-hemolítico, cresce em meios seletivos como PALCAM e BCYE.
- Forma biofilme, favorecendo sua persistência em ambientes úmidos e resistência a desinfetantes.
- Sobrevive a temperaturas entre 2-45°C, permitindo seu crescimento em alimentos refrigerados.
- Principais sorotipos patogênicos:
- L. monocytogenes 1/2a, 1/2b e 4b – responsáveis pela maioria das infecções humanas.
- Sorotipo 4b frequentemente associado a surtos epidêmicos.
A infecção ocorre principalmente por ingestão de alimentos contaminados, com a bactéria penetrando o epitélio intestinal e disseminando-se por via hematogênica.
Epidemiologia e Fatores de Risco
- Alimentos de alto risco:
- Leite e queijos não pasteurizados (ex.: brie, camembert, queijos mexicanos).
- Peixes defumados e frutos do mar crus.
- Carnes processadas (presunto, hot dog, patês).
- Vegetais crus mal lavados.
- Fatores de risco para listeriose invasiva:
- Idosos (>65 anos).
- Gestantes (risco aumentado de aborto e natimorto).
- Imunossuprimidos:
- Pacientes oncológicos, transplantados, HIV/AIDS.
- Uso de corticoides e imunossupressores.
- Alcoolismo e insuficiência hepática crônica.
A maioria dos casos não está associada a surtos, mas infecções esporádicas são comuns.
Manifestações Clínicas
A listeriose pode se manifestar de forma autolimitada (gastroenterite) ou grave e invasiva, dependendo do paciente.
1. Listeriose Gastrointestinal
- Sintomas: febre, diarreia aquosa, mialgia, artralgia.
- Duração: 1-3 dias.
- Epidemiologia: associada a surtos alimentares.
2. Listeriose Invasiva
2.1. Meningite e Meningoencefalite
- Responsável por 1-2% dos casos neonatais e 4-5% dos casos adultos de meningite bacteriana.
- Manifestações:
- Meningite clássica (febre, cefaleia, rigidez de nuca).
- Meningoencefalite (confusão, crises convulsivas, sinais focais).
- Romboencefalite (atacando tronco encefálico e cerebelo) – prognóstico grave.
- Abscessos cerebrais e cerebrites – associados à mortalidade aumentada.
A mortalidade da listeriose neurológica é de 30%.
2.2. Bacteremia e Sepse
- Afeta principalmente imunossuprimidos e idosos.
- Alta mortalidade (~45%).
- Manifestações clínicas:
- Febre persistente, hipotensão, falência de múltiplos órgãos.
- Pode haver foco secundário (ex.: meningite, abscessos hepáticos).
2.3. Listeriose em Gestantes e Neonatos
- Infecção materna geralmente ocorre no terceiro trimestre.
- Mãe:
- Sintomas gripais inespecíficos: febre baixa, dor lombar, calafrios.
- Pode levar a aborto espontâneo ou natimorto (~20-25%).
- Neonato:
- Infecção congênita precoce:
- Sepse neonatal grave.
- Granulomatosis infantiseptica (lesões granulomatosas disseminadas).
- Infecção tardia (1-2 semanas após o nascimento):
- Meningite neonatal.
- Infecção congênita precoce:
2.4. Infecções Focais (Raras)
- Endocardite e pericardite.
- Peritonite bacteriana espontânea (PBE) em cirróticos.
- Osteomielite e artrite séptica.
Diagnóstico
1. Cultura de Sangue e Líquor
- Padrão-ouro para listeriose invasiva.
- Positividade:
- Hemoculturas (~63%).
- Líquor (LCR): Gram positivo em 30%, cultura positiva em 85%.
2. PCR (Teste Molecular)
- Sensibilidade alta para meningite listeriana (~60%).
- Pode ser útil como teste rápido, mas não substitui a cultura.
3. Sorologia e Cultura de Fezes
- Sorologia não é recomendada (baixa especificidade).
- Cultura de fezes não é útil, pois há portadores assintomáticos.
4. Imagem (TC/RM)
- Abscessos cerebrais podem apresentar realce em anel.
- Romboencefalite pode demonstrar lesões no tronco cerebral.
Tratamento
O tratamento deve ser iniciado imediatamente em casos de suspeita de meningite ou sepse por Listeria.
1. Infecções Graves (Meningite, Bacteremia)
- Ampicilina 2 g IV a cada 4-6h + Gentamicina 1,7 mg/kg IV a cada 8h por ≥ 3 semanas.
- Alternativas (se alergia a β-lactâmicos):
- TMP-SMX 3-5 mg/kg (trimetoprim) IV a cada 6h.
- Meropenem 2 g IV a cada 8h.
⚠ Evitar Cefalosporinas e Vancomicina, pois são ineficazes contra Listeria.
2. Abscesso Cerebral ou Encefalite
- Tratamento prolongado (4-6 semanas) com ampicilina ± gentamicina.
3. Bacteremia sem Meningite
- Ampicilina IV por 2 semanas (se imunossuprimido, considerar ≥ 3 semanas).
4. Gastroenterite
- Geralmente autolimitada.
- Pode-se considerar amoxicilina ou TMP-SMX por 7 dias em pacientes de risco.
Prevenção
- Evitar alimentos de alto risco, especialmente em grupos vulneráveis:
- Queijos não pasteurizados.
- Peixes defumados e carnes processadas.
- Hortaliças cruas mal lavadas.
- Gestantes e imunossuprimidos devem evitar alimentos refrigerados prontos para consumo.
Conclusão
A listeriose é uma infecção grave, com alta mortalidade em pacientes vulneráveis. O diagnóstico precoce é essencial, e o tratamento com ampicilina ± gentamicina deve ser iniciado rapidamente. Medidas de prevenção alimentar são fundamentais para reduzir o risco de infecção.
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Referências
- Charlier C, Perrodeau É, Leclercq A, et al. Clinical features and prognostic factors of listeriosis: the MONALISA national prospective cohort study. Lancet Infect Dis. 2017;17(5):510-519. [PMID:28139432].
- van de Beek D, Cabellos C, Dzupova O, et al. ESCMID guideline: diagnosis and treatment of acute bacterial meningitis. Clin Microbiol Infect. 2016;22 Suppl 3:S37-62. [PMID:27062097].




