Em um cenário de constante evolução e desafios crescentes relacionados às infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), os estados e municípios brasileiros enfrentam a necessidade de implementar e fortalecer estratégias precisas, estruturadas e inovadoras para 2026. Dados mostram que cerca de 14% dos pacientes internados no país desenvolvem infecções, o que resulta em mais de 45 mil mortes anuais, números significativamente superiores ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) evidenciando a urgência de ações coordenadas【https://www.migalhas.com.br/coluna/migalhas-de-responsabilidade-civil/432158/infeccoes-hospitalares-e-a-responsabilidade-juridica-no-brasil】【https://www.ona.org.br/noticias/70-das-mortes-por-infeccoes-associadas-a-assistencia-hospitalar-poderiam-ser-evitadas】.
A prevenção é o caminho para salvar vidas e reduzir custos com saúde.
O artigo a seguir apresenta um roteiro com estratégias específicas, ferramentas de referência e exemplos de aplicação, baseando-se nos componentes fundamentais da OMS, em instrumentos práticos como ANPCI e IPCAT2, e especialmente nas mais recentes orientações normativas nacionais.
O cenário das IRAS e o impacto nos sistemas estaduais e municipais
Infecções associadas à assistência à saúde ainda são desafios presentes em todo o Brasil. Os efeitos ultrapassam o indivíduo, minando a confiança da comunidade, ampliando o tempo de internação, elevando custos e, não raro, levando ao desfecho fatal. Estudos nacionais indicam que 70% dessas mortes poderiam ser evitadas por meio de práticas eficazes de prevenção e controle institucionalizado segundo análise da Associação Médica Brasileira.
A OMS recomenda que a mortalidade por IRAS não ultrapasse 5% dos internados, mas no Brasil esse índice chega a ser três vezes superior. A resposta exige fortalecimento dos programas estaduais e municipais, com apoio em instrumentos normativos, monitoramento constante e educação dos profissionais da linha de frente【https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2023/anvisa-divulga-documentos-sobre-programas-de-prevencao-e-controle-de-infeccoes】.
Premissas para o fortalecimento dos programas estaduais e municipais
Para atingir resultados consistentes em 2026, a proposta de ações deve partir do entendimento e da estruturação das bases desses programas, orientadas pelas diretrizes nacionais e internacionais. Entre elas, destaca-se:
- Clareza nos objetivos e metas, alinhados ao Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS).
- Estruturação do sistema local de vigilância, com monitoramento constante dos principais indicadores epidemiológicos.
- Disseminação do conhecimento e da cultura de segurança entre todos os profissionais, inclusive gestão, equipes assistenciais e áreas de apoio.
- Implementação de ferramentas como ANPCI (Avaliação Nacional de Programas de Controle de Infecção) e IPCAT2 (Instrumento de Pesquisa para Avaliação de Programas de Controle de Infecção).
- Adesão às recomendações dos componentes da OMS para prevenção e controle das IRAS.
A consolidação dessas premissas exige compromisso político, destinação de recursos, monitoramento e capacitação continuada de equipes, e um olhar atento ao contexto local, priorizando serviços críticos como UTI’s, centros cirúrgicos e unidades de diálise.
Componentes dos programas de prevenção e controle indicados pela OMS
Existem oito componentes reconhecidos internacionalmente para apoiar a estruturação dos programas de IRAS nas diferentes esferas do sistema de saúde:
- Governança e sustentabilidade dos programas estaduais e municipais de PCI.
- Disponibilidade de diretrizes e protocolos atualizados baseados em evidências.
- Capacitação contínua de profissionais de todos os níveis.
- Monitoramento, auditoria e feedback sistemático sobre práticas e indicadores.
- Vigilância ativa e notificação transparente de desfechos, surtos e eventos adversos.
- Estrutura e recursos físicos adequados, incluindo suprimentos críticos de higienização e antimicrobianos.
- Educação em saúde e comunicação com pacientes e familiares.
- Comitês multiprofissionais ativos, integrando diferentes áreas do serviço.
Esses componentes encontram-se detalhados em documentos oficiais de referência nacional, como as notas técnicas da Anvisa, voltadas à padronização, à notificação e ao monitoramento das IRAS para o ano de 2026 conforme divulgado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Estruturar o programa é o primeiro passo. Garantir sua sustentabilidade é o desafio maior.
Ferramentas úteis: ANPCI, IPCAT2 e checklists de vigilância
A avaliação de maturidade e efetividade dos programas estaduais e municipais deve passar por medições sistematizadas, e, para isso, ANPCI e IPCAT2 são instrumentos de apoio essenciais. Elas permitem mapear pontos fortes, fragilidades, práticas aderentes e lacunas em processos críticos.
- Avaliação Nacional de Programas de Controle de Infecção (ANPCI): permite diagnóstico do estágio e da complexidade do programa no ente federado ou serviço, identificando áreas prioritárias para intervenção.
- Instrumento de Pesquisa para Avaliação de Programas de Controle de Infecção (IPCAT2): recomendado pela OMS, esse instrumento padroniza dados e permite avaliações comparativas, servindo de referência internacional.
- Checklists de verificação: modelos como os de procedimentos para inserção segura de cateter central podem ser adaptados às diferentes realidades, auxiliando a equipe a monitorar práticas e corrigir desvios em tempo real.
Essas ferramentas destacam a necessidade de personalização das ações a partir da realidade local de cada serviço, promovendo uma abordagem proativa e não apenas reativa no enfrentamento das IRAS.
Vigilância epidemiológica local: a base do controle
A vigilância ativa é pilar para a redução das IRAS e do impacto da resistência antimicrobiana. Estabelecer um sistema de coletas e análise regular de indicadores é parte fundamental para fundamentar decisões e prioridades dos gestores de saúde estadual e municipal.
É fundamental que a equipe domine o fluxo:
- Definição clara dos eventos e indicadores a serem vigiados;
- Coleta padronizada de dados (incluindo numerador e denominador), conforme orientações atualizadas;
- Uso regular dos formulários nacionais de notificação eletrônica;
- Análise crítica dos dados e feedback sistematizado para os times de saúde;
- Divulgação de relatórios periódicos para profissionais, gestores e, quando cabível, para a população local;
- Monitoramento das taxas de prevalência, incidência e densidade de incidência, com exemplos e métricas claras.
Esta rotina estimula a cultura de segurança, favorece o benchmarking entre diferentes instituições e motiva a adoção de práticas com base em resultados.

Implementação prática: como fortalecer a atuação local?
A mudança se inicia na consolidação de processos e na integração das iniciativas com os demais setores. Estados e municípios podem se beneficiar da adoção de boas práticas organizacionais:
- Engajamento de lideranças, sensibilizando gestores e equipes assistenciais sobre a relevância do tema.
- Distribuição de responsabilidades claras entre comissão de controle, núcleos de qualidade e setores clínicos.
- Formação continuada dos profissionais, apoiando-se em métodos ativos de ensino e atualização frequente sobre protocolos e procedimentos seguros.
- Padronização do uso de produtos e tecnologias de prevenção, como soluções para higienização das mãos, barreiras estéreis e curativos oclusivos.
- Análise de indicadores própria, com devolutiva periódica aos times clínicos, além de reportes para instâncias superiores e para órgãos gestores.
Na implementação institucional, destacar o fluxo claro para obtenção, registro, análise e feedback dos dados de vigilância é diferencial essencial para o sucesso, como detalhado em passo a passo de implementação institucional de programas de prevenção.
Quando equipes se envolvem nas decisões, a taxa de adesão às medidas sobe rapidamente.
Feedback sistemático: como fortalecer o ciclo de melhoria?
O retorno contínuo de informações analíticas para profissionais assistenciais é apontado como uma das mais eficazes estratégias para engajamento e melhoria dos resultados. Isso pode ser realizado por meio de relatórios trimestrais, reuniões de discussão de casos e incentivo à participação ativa de núcleos assistenciais e equipes cirúrgicas.
Entre as recomendações, sugere-se que os times cirúrgicos recebam, ao menos a cada três meses, relatórios específicos de suas taxas de infecção. Essa medida aproxima o dado do tomador de decisão e fomenta a responsabilidade compartilhada.
- Análise dos indicadores mais sensíveis para o serviço (exemplo: infecção de sítio cirúrgico, pneumonia associada à ventilação mecânica, infecção urinária relacionada a cateterização), com discussão dos casos e intervenções focalizadas.
- Revisão rotineira dos procedimentos adotados frente aos eventos adversos ou surtos identificados.
- Correção ágil de desvios nas práticas de prevenção, com suporte em evidências atuais e protocolos do Ministério da Saúde e Anvisa.
Saiba como estruturar seu plano de feedback para melhoria assistencial e as experiências que têm gerado melhores resultados em planos de feedback baseados em dados.
Gestão de recursos, governança, e acesso ao conhecimento
A sustentação de qualquer iniciativa depende da boa gestão dos recursos financeiros, humanos e tecnológicos. A análise orçamentária deve priorizar itens como capacitação de pessoal, aquisição de materiais para prevenção (álcool gel, sabão líquido, barreiras físicas) e sistemas eletrônicos de coleta e análise de dados.
Ao lado da gestão de recursos, a governança do programa requer:
- Definição de equipe gestora multidisciplinar;
- Delimitação de fluxos, metas e prazos para o atingimento dos objetivos;
- Garantia de apoio institucional e respaldo das secretarias de saúde;
- Incorporação dos resultados em políticas públicas locais efetivas, traçando estratégias de resposta rápida e ações corretivas baseadas em evidências.
Além disso, a atualização permanente dos profissionais sobre critérios diagnósticos, fluxos de notificação, conceitos epidemiológicos e procedimentos específicos é imprescindível, recursos essenciais podem ser encontrados em manuais atualizados de critérios diagnósticos.
Notificação: dados para a ação
A notificação dos indicadores nacionais de IRAS passou a contar, em 2026, com novos formulários eletrônicos específicos para cenários distintos (UTI, centros cirúrgicos, diálise, oftalmologia), com orientações detalhadas sobre períodos, critérios e responsabilidades de coleta e transmissão dos dados.
Popularizar o acesso a esses formulários, incentivar o uso correto e padronizado, e evitar erros comuns são desafios que podem ser superados por meio de divulgação clara, treinamentos e supervisão ativa. O detalhamento das etapas de preenchimento pode ser consultado em guias orientadores de notificação.
Exemplos práticos, desafios comuns e soluções locais
Evidências apontam que a principal barreira para o sucesso dos programas reside em gargalos como ausência de liderança, recursos insuficientes, rotatividade de equipes e desconhecimento dos protocolos. Para contornar esses entraves, recomenda-se:
- Planejamento regionalizado, com definição de ações e metas realistas para cada localidade.
- Adoção de estratégias de educação permanente, com participação de profissionais de todos os níveis.
- Integração entre esferas estadual, municipal e federal, prevenindo conflitos de fluxo de dados, sobreposição de esforços e desencontros de informações.
- Monitoramento intensivo das práticas em unidades críticas, destacando-se as UTIs e unidades cirúrgicas.
Municípios que relatam cases de sucesso sempre contam com engajamento do gestor, investimento contínuo em formação e uso criativo de soluções locais, como adaptação de checklists e reuniões de feedback.
Conclusão
O fortalecimento dos programas estaduais e municipais de enfrentamento às IRAS depende, sobretudo, de organização, participação ativa de equipes multidisciplinares, uso inteligente de ferramentas de avaliação e notificação, e investimento em educação e monitoramento contínuos.
Vigilância epidemiológica, cultura de segurança, gestão de recursos e resposta baseada em dados são peças fundamentais na conquista de resultados mais seguros e eficazes para a população. O futuro do combate às IRAS, em 2026, será mais promissor onde houver perseverança, atualização e integração de esforços em todos os níveis do sistema de saúde.
Perguntas frequentes sobre programas contra IRAS
O que são programas contra IRAS?
Programas contra IRAS são conjuntos estruturados de ações, protocolos e monitoramentos contínuos desenvolvidos para prevenir, identificar, notificar e controlar as infecções relacionadas à assistência à saúde em ambientes hospitalares e ambulatoriais. Estes programas envolvem práticas de higiene, uso racional de antimicrobianos, vigilância epidemiológica, educação continuada dos profissionais e integração de diferentes setores do serviço, visando a redução das taxas de infecção e melhoria da segurança do paciente.
Como fortalecer ações contra IRAS em 2026?
Para fortalecer as ações contra IRAS em 2026, recomenda-se consolidar sistemas locais de vigilância, usar ferramentas atualizadas de notificação, oferecer treinamentos frequentes, engajar lideranças, fazer uso de checklists de processos críticos e valorizar o feedback dos dados aos profissionais. O emprego das orientações normativas, como os critérios diagnósticos brasileiros validados pela Anvisa e o uso de instrumentos internacionais de avaliação, é fundamental para padronizar e potencializar resultados.
Quais os principais desafios para municípios?
Entre os desafios mais relatados por municípios estão: limitação de recursos financeiros e humanos, alta rotatividade de equipes, desconhecimento dos protocolos, resistência à mudança de práticas tradicionais e dificuldades na integração dos fluxos de notificação e análise de indicadores. Superar tais obstáculos exige planejamento regionalizado, capacitação permanente e criação de canais efetivos de comunicação e suporte técnico entre as diferentes esferas.
Onde buscar recursos para programas de IRAS?
Recursos para programas de IRAS podem ser buscados junto às secretarias estaduais e municipais de saúde, ministérios, agências regulatórias como a Anvisa e por meio de iniciativas de apoio federal e internacional. Além disso, é recomendável otimizar o uso dos recursos já disponíveis, priorizando itens críticos como formação de pessoal, insumos para higienização e sistemas digitais de monitoramento e análise de dados.
Quais são as melhores práticas atualmente?
As melhores práticas envolvem vigilância epidemiológica ativa, notificação sistemática e correta dos dados, feedback frequente para equipes assistenciais, implementação de protocolos baseados em evidências, uso de checklists em processos críticos, educação continuada e integração entre setores. O uso de ferramentas como ANPCI, IPCAT2 e critérios nacionais validados são recomendações centrais das autoridades sanitárias segundo artigo especializado sobre vigilância.
Vigilância epidemiológica local: a base do controle
Gestão de recursos, governança, e acesso ao conhecimento
Exemplos práticos, desafios comuns e soluções locais

