O gênero Cardiobacterium pertence ao grupo HACEK, um conjunto de bacilos Gram-negativos de crescimento lento, frequentemente associados à endocardite infecciosa subaguda. Essas bactérias são componentes normais da microbiota do trato respiratório superior, mas podem causar infecções endovasculares, especialmente em pacientes com doença cardíaca estrutural ou dispositivos cardiovasculares.
O principal patógeno humano é o Cardiobacterium hominis, seguido pelo Cardiobacterium valvarum, ambos descritos em infecções endovasculares e, raramente, em infecções extra-cardíacas.
Microbiologia
Características Gerais
- Bacilos Gram-negativos aeróbios.
- Pleomórficos e de crescimento lento em meios tradicionais (ex.: ágar sangue).
- Catalase-negativo, oxidase-positivo, indol-positivo.
- Parte da microbiota respiratória superior humana.
- Crescimento melhorado por hemoculturas prolongadas (3-5 dias).
Espécies Clínicas Importantes
- Cardiobacterium hominis → Causa mais comum de endocardite infecciosa pelo gênero.
- Cardiobacterium valvarum → Relatado em casos de endocardite e infecções em dispositivos cardíacos.
Epidemiologia
- Infecção rara, responsável por <0,01% dos casos de endocardite.
- Parte do grupo HACEK, associado a endocardite subaguda.
- Fatores de risco:
- Doença cardíaca estrutural prévia.
- Procedimentos odontológicos recentes.
- Uso de dispositivos cardiovasculares (marcapassos, desfibriladores implantáveis).
Manifestações Clínicas
1. Endocardite Infecciosa (EI)
- Doença insidiosa e subaguda, podendo levar até 169 dias para diagnóstico.
- Sintomas comuns:
- Febre baixa, fadiga, perda de peso e sudorese noturna.
- Sopro cardíaco novo ou alteração de um sopro pré-existente.
- Manifestações embólicas (em 50% dos casos).
- Complicações:
- Insuficiência cardíaca por disfunção valvar.
- Embolia séptica cerebral, esplênica ou renal.
- Formação de aneurismas micóticos.
2. Infecções Extra-Cardíacas (Raras)
- Bacteremia isolada (95% dos casos estão associados a infecção endovascular).
- Osteomielite vertebral e abscessos epidurais.
- Artrite séptica.
- Infecções oftalmológicas.
Diagnóstico
1. Cultura e Identificação
- Hemocultura → Crescimento lento (3-5 dias); pode exigir incubação prolongada.
- Gram → Bacilos pleomórficos, podendo formar cadeias.
- MALDI-TOF MS → Facilita identificação rápida.
- Dificuldade Diagnóstica → Pode ser confundido com outros bacilos Gram-negativos.
2. Critérios para Diagnóstico de Endocardite
- Hemocultura positiva persistente para Cardiobacterium spp..
- Ecocardiograma transesofágico (ETE) → Avaliação de vegetações valvares.
- Sinais laboratoriais sugestivos:
- Anemia normocítica.
- Velocidade de hemossedimentação (VHS) elevada.
Tratamento
1. Terapia Antimicrobiana
Regimes preferenciais (AHA Guidelines 2015):
- Ceftriaxona 2 g IV/IM a cada 24h (1ª escolha).
- Alternativas:
- Ampicilina 2 g IV a cada 4h (se sensível).
- Ciprofloxacino 400 mg IV 12/12h ou 500 mg VO 12/12h (pacientes alérgicos a beta-lactâmicos).
Duração do tratamento:
- Endocardite em válvula nativa → 4 semanas.
- Endocardite em válvula protética → 6 semanas.
2. Cirurgia Cardíaca
- Indicações:
- Insuficiência cardíaca refratária.
- Abscessos valvares.
- Vegetações móveis com risco de embolização.
3. Tratamento de Infecções Extra-Cardíacas
- Bacteremia isolada → Ceftriaxona IV por 2 semanas.
- Osteomielite ou abscessos epidurais → Ceftriaxona IV por 6 semanas.
Resistência Antimicrobiana
- Tradicionalmente sensível a penicilinas, mas casos de produção de beta-lactamase foram descritos.
- Fluoroquinolonas podem ser uma alternativa, mas com menos experiência clínica.
Prevenção
- Profilaxia antibiótica antes de procedimentos odontológicos para pacientes de alto risco.
- Monitoramento rigoroso de hemoculturas prolongadas em casos suspeitos.
- Atenção a pacientes com dispositivos cardíacos que desenvolvem febre de origem desconhecida.
Conclusão
As infecções por Cardiobacterium spp. são raras, mas associadas à endocardite subaguda. O diagnóstico pode ser desafiador devido ao crescimento lento da bactéria, exigindo hemoculturas prolongadas e técnicas moleculares para confirmação. O tratamento padrão inclui ceftriaxona IV por 4-6 semanas, com possível necessidade de cirurgia valvar em casos complicados. Prevenção com profilaxia antibiótica e monitoramento clínico rigoroso são essenciais para reduzir a morbimortalidade.
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Referências
- Baddour LM, Wilson WR, Bayer AS, et al. Infective Endocarditis in Adults: Diagnosis and Management. Circulation. 2015.
- Asai N, Sakanashi D, Suematsu H, et al. Infective Endocarditis by Cardiobacterium hominis. J Infect Chemother. 2019.
- Chambers ST, Murdoch D, Morris A, et al. HACEK Infective Endocarditis: Characteristics and Outcomes. PLoS One. 2013.




