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Espécies de Bacteroides

O gênero Bacteroides compreende bacilos Gram-negativos anaeróbios, sendo componentes predominantes da microbiota intestinal humana. Embora sejam comensais, podem causar infecções graves quando translocam para tecidos estéreis, geralmente como parte de infecções polimicrobianas. Bacteroides fragilis é a espécie mais frequentemente isolada em infecções humanas e é notável pela sua capacidade de desenvolver resistência antimicrobiana.

O gênero Bacteroides compreende bacilos Gram-negativos anaeróbios, sendo componentes predominantes da microbiota intestinal humana. Embora sejam comensais, podem causar infecções graves quando translocam para tecidos estéreis, geralmente como parte de infecções polimicrobianas. Bacteroides fragilis é a espécie mais frequentemente isolada em infecções humanas e é notável pela sua capacidade de desenvolver resistência antimicrobiana.

Microbiologia

Características Gerais

  • Bacilos Gram-negativos pleomórficos.
  • Anaeróbios obrigatórios, mas relativamente aerotolerantes.
  • Facilmente cultiváveis em laboratório.
  • Espécies clinicamente significativas:
    • Bacteroides fragilis (mais patogênico e resistente).
    • Bacteroides thetaiotaomicron.
    • Bacteroides vulgatus.
    • Bacteroides distasonis.
    • Bacteroides ovatus.
    • Bacteroides uniformis.
    • Bacteroides caccae.

Fatores de Virulência

  • Cápsula polissacarídica: proteção contra fagocitose e indução de formação de abscessos.
  • Beta-lactamases: conferem resistência a penicilinas.
  • Toxina do Bacteroides fragilis (BFT ou fragilisina): associada a diarreia secretora e possível carcinogênese colônica.

Resistência Antimicrobiana

  • Altas taxas de resistência em B. fragilis:
    • Resistência a carbapenêmicos: até 12,7% no Canadá, 7-12% em Taiwan.
    • Multirresistência: cepas resistentes simultaneamente a carbapenêmicos e metronidazol foram identificadas.
    • Metronidazol: ainda eficaz na maioria dos casos, mas há relatos de resistência emergente.

Epidemiologia

  • Colonizam normalmente o trato gastrointestinal, representando ~25% da microbiota intestinal.
  • Infecções são geralmente polimicrobianas, envolvendo flora aeróbia e anaeróbia.
  • Principal causa de bacteremia anaeróbica.
  • Associação com câncer colorretal → bacteremia por Bacteroides spp. sem foco claro deve levantar suspeita de neoplasia oculta.

Manifestações Clínicas

1. Infecções Intra-abdominais

  • Abscessos intra-abdominais (frequentemente polimicrobianos).
  • Peritonite secundária após perfuração de víscera oca.
  • Apendicite e diverticulite complicadas.

2. Infecções do Sistema Nervoso Central

  • Abscesso cerebral (frequentemente associado a sinusite crônica ou otite média).
  • Empiema subdural e epidural.

3. Infecções Pulmonares

  • Pneumonia aspirativa.
  • Abscesso pulmonar e empiema.

4. Infecções Ginecológicas e Pélvicas

  • Doença inflamatória pélvica (DIP).
  • Abscesso tubo-ovariano.
  • Endometrite, corioamnionite e infecções pós-cirúrgicas.

5. Infecções de Pele e Partes Moles

  • Úlceras de pressão e infecções de pé diabético.
  • Celulite necrosante e fasciíte necrosante.
  • Infecções por mordeduras humanas e animais.

6. Infecções Ósseas

  • Osteomielite, frequentemente associada a úlceras de pressão.

7. Bacteremia e Endocardite

  • Bacteremia monomicrobiana → pode indicar malignidade oculta.
  • Endocardite (rara, mas documentada em imunossuprimidos).

Diagnóstico

Critérios Diagnósticos

  1. Gram e Cultura Anaeróbia:
    • Requer culturas anaeróbicas específicas (Brucella blood agar, CDC anaerobe agar).
    • Gram de amostras clínicas pode mostrar flora mista.
  2. Suspeita Clínica:
    • Infecções com pus de odor fétido → altamente sugestivo de anaeróbios.
    • Bacteremia de origem desconhecida → investigar neoplasia colorretal.
  3. Testes de Suscetibilidade:
    • Nem sempre realizados, mas recomendados em casos graves ou refratários.

Tratamento

1. Antibioticoterapia

Devido à resistência significativa, antibióticos devem ser escolhidos com base na epidemiologia local.

Opções de Monoterapia

  • Metronidazol 500 mg IV 12/12h.
  • Ertapenem 1 g IV 24/24h.
  • Meropenem 1 g IV 8/8h.
  • Piperacilina/tazobactam 3,375 g IV 6/6h.

Opções de Terapia Combinada (infecções polimicrobianas)

  • Metronidazol 0,75-1 g IV 12/12h + Cefepime 2 g IV 8/8h ou Ceftriaxona 2 g IV 24/24h.

2. Drenagem Cirúrgica

  • Essencial para abscessos intra-abdominais e pélvicos.
  • Casos pequenos (<2,5 cm) podem responder a antibióticos.

3. Terapias Alternativas

  • Doripenem tem melhor atividade contra Bacteroides spp. que imipenem e meropenem.
  • Eravaciclina é eficaz em infecções intra-abdominais complicadas.

4. Resistência Antimicrobiana

  • Clindamicinanão recomendada (resistência de até 60%).
  • Moxifloxacinoaltas taxas de resistência (até 26%).
  • Beta-lactâmicos simples>90% de resistência.

Prevenção e Controle

  • Evitar o uso indiscriminado de antibióticos de amplo espectro, especialmente carbapenêmicos e beta-lactâmicos combinados.
  • Drenagem cirúrgica precoce para evitar complicações.
  • Monitoramento rigoroso em pacientes com câncer colorretal, devido à associação com bacteremia por Bacteroides spp..

Conclusão

O gênero Bacteroides é fundamental na microbiota intestinal, mas pode causar infecções graves quando transloca para locais estéreis. B. fragilis é a espécie mais frequentemente isolada em infecções humanas e apresenta resistência antimicrobiana crescente. Metronidazol e carbapenêmicos são os antibióticos mais eficazes, mas a escolha deve considerar resistência local e características da infecção. O diagnóstico precoce e o manejo adequado da resistência são essenciais para o sucesso terapêutico.

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Referências

  1. Copsey-Mawer S, Hughes H, Scotford S, et al. Antimicrobial resistance in Bacteroides species. Anaerobe. 2021;72:102447.
  2. Karlowsky JA, Walkty AJ, Adam HJ, et al. Bacteroides fragilis antimicrobial resistance. Antimicrob Agents Chemother. 2012;56(3):1247-52.

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