A endoftalmite é uma das complicações mais temidas após procedimentos oftalmológicos invasivos. Trata-se de uma inflamação intraocular secundária à infecção por microrganismos — principalmente bactérias — que pode evoluir rapidamente para perda visual grave, danos irreversíveis às estruturas oculares e, em casos extremos, à necessidade de evisceração ou enucleação do globo ocular.
Apesar de sua baixa incidência, a gravidade do quadro exige atenção redobrada das equipes assistenciais e, principalmente, do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH), que precisa atuar de forma proativa tanto na prevenção, quanto na vigilância e resposta rápida diante de suspeitas ou confirmações do evento.
Incidência e relevância clínica em Procedimentos Oftalmológicos
A incidência da endoftalmite varia conforme o tipo de procedimento:
- Catarata: até 0,17%
- Transplante de córnea: até 0,36%
- Cirurgias antiglaucomatosas: 0,23%
- Injeções intravítreas: 0,06%
- Vitrectomias: 0,05%
Embora os números pareçam pequenos, o grande volume de cirurgias oftalmológicas realizadas anualmente — especialmente de catarata — faz com que casos esporádicos sejam praticamente inevitáveis. O problema se torna crítico quando ocorrem surtos, geralmente relacionados a falhas sistêmicas em antissepsia, reprocessamento de instrumentais ou uso inadequado de insumos.
Agentes etiológicos e sinais clínicos
Os principais microrganismos associados à endoftalmite são:
- Staphylococcus coagulase-negativa (mais comum em endoftalmite pós-catarata ou pós-injeção intravítrea)
- Staphylococcus aureus (frequentemente mais agressivo, associado a pior prognóstico)
- Pseudomonas aeruginosa (particularmente grave, com evolução fulminante em surtos)
- Fungos (como Candida e Fusarium, mais comuns em pacientes imunossuprimidos ou após procedimentos em ambientes contaminados)
Sinais Clínicos de Eventos Adversos em Procedimentos Oftalmológicos
Os sinais clínicos mais comuns incluem:
- Dor ocular intensa de início súbito;
- Hiperemia conjuntival difusa;
- Diminuição acentuada da acuidade visual;
- Hipópio (acúmulo de exsudato purulento na câmara anterior);
- Turvação vítrea, edema corneano e opacificação de meios.
A progressão pode ser rápida, e o diagnóstico precoce é crucial para tentativa de preservação visual. Por isso, o protocolo institucional deve prever que toda queixa visual atípica após 48-72h da cirurgia seja tratada como suspeita de endoftalmite até prova em contrário.
O papel do SCIH na prevenção de Eventos Adversos em Procedimentos Oftalmológicos
O SCIH deve atuar em múltiplas frentes para prevenir a ocorrência de endoftalmite:
1. Padronização e auditoria de protocolos
- A antissepsia ocular com PVPI a 5% deve ser feita com irrigação da conjuntiva por pelo menos 3 minutos;
- Frascos multidoses devem ser evitados ou usados com controle rigoroso;
- Campos estéreis descartáveis, cânulas de uso único e seringas devem ser utilizados conforme orientação da Anvisa;
- O reprocessamento de instrumentais deve seguir as RDCs vigentes (especialmente RDC 15/2012 e RDC 156/2006), com atenção especial a itens de lúmen estreito e seringas irrigadoras.
2. Participação em treinamentos e capacitações
- O SCIH deve integrar treinamentos com equipe assistencial e CME, promovendo a cultura de segurança desde o preparo domiciliar até o pós-operatório;
- Atenção especial deve ser dada a equipes terceirizadas ou que realizam mutirões — onde a rotatividade de profissionais é alta e o risco de falha aumenta.
3. Elaboração de roteiros de inspeção e visitas técnicas
- O centro oftalmológico deve ser visitado periodicamente, com checklist específico adaptado à realidade da oftalmologia;
- A presença do SCIH nas reuniões com os responsáveis técnicos pela oftalmologia é essencial para construção conjunta de soluções e monitoramento de práticas.
Vigilância e investigação de casos
Além da prevenção, o SCIH tem papel central na vigilância ativa e na investigação de casos suspeitos:
O que deve acender o alerta:
- Dois ou mais casos de endoftalmite em um curto intervalo de tempo;
- Ocorrência de infecção após injeções intravítreas realizadas no mesmo dia;
- Casos relacionados a um mesmo lote de insumo, lente intraocular ou campo estéril;
- Sinais clínicos em múltiplos pacientes operados por uma mesma equipe ou em ambiente comum.
Investigação microbiológica:
- Coleta de humor vítreo e aquoso para cultura e PCR;
- Análise microbiológica de insumos suspeitos (medicamentos, colírios, soluções irrigadoras);
- Avaliação do CME e revisão dos POPs aplicados;
- Notificação imediata ao serviço de vigilância sanitária, conforme orientações da Anvisa.
A Ficha de Investigação de Endoftalmite e o Protocolo de Investigação de Surtos da Anvisa são ferramentas essenciais para guiar essa etapa.
A importância da notificação e do aprendizado institucional
É comum que casos isolados de endoftalmite sejam tratados como fatalidades sem uma análise sistêmica. Esse é um erro que perpetua vulnerabilidades ocultas.
A investigação deve gerar informações aplicáveis para reforçar protocolos, treinar equipes, atualizar POPs e promover mudança institucional sustentada.
O SCIH, ao centralizar essas ações, torna-se peça-chave não apenas na contenção de surtos, mas na formação de uma cultura institucional de prevenção.
Conclusão
A endoftalmite, mesmo sendo uma complicação relativamente rara, representa uma das mais graves ameaças à segurança do paciente na oftalmologia. Sua prevenção e manejo exigem ação coordenada entre assistência, CME, laboratório, farmácia e, sobretudo, o SCIH.
Mais do que aplicar diretrizes, é preciso traduzir evidência em rotina, adaptando condutas à realidade de cada serviço e mantendo vigilância ativa. É essa articulação que salva olhos, preserva funções e garante credibilidade institucional.
Leitura complementar recomendada:
Para aprofundar a abordagem estratégica do SCIH frente à infecção ocular pós-operatória, confira também nosso conteúdo: “Como Estruturar a Vigilância da Endoftalmite em Serviços de Saúde“ — uma análise prática sobre fluxos de notificação, coleta de dados clínicos e articulação com a vigilância sanitária.





