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Classificação AWaRe em pediatria: organizando antimicrobianos por prioridade

Criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e fortemente recomendada pela nova Diretriz Nacional da ANVISA [1], a AWaRe é uma forma genial de categorizar os antibióticos em três grupos – Acesso (Access), Observação (Watch) e Reserva (Reserve) – para guiar o uso racional e o monitoramento. Para o PGA em pediatria, essa classificação é ouro puro. Vamos entender como usar esse “semáforo” para tomar decisões mais seguras e inteligentes na prática.

Um semáforo para o uso de antibióticos

Em um mundo ideal, teríamos um guia simples e visual para nos ajudar a escolher o antibiótico certo para cada situação. Uma espécie de semáforo que nos dissesse: “siga em frente”, “atenção” ou “pare e pense muito bem”. A boa notícia é que essa ferramenta existe, e se chama classificação AWaRe. Criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e fortemente recomendada pela nova Diretriz Nacional da ANVISA [1], a AWaRe é uma forma genial de categorizar os antibióticos em três grupos – Acesso (Access), Observação (Watch) e Reserva (Reserve) – para guiar o uso racional e o monitoramento. Para o PGA em pediatria, essa classificação é ouro puro. Vamos entender como usar esse “semáforo” para tomar decisões mais seguras e inteligentes na prática.

Desvendando a Classificação AWaRe: Acesso, Observação e Reserva

A classificação AWaRe é brilhante em sua simplicidade. Ela divide os antibióticos em três grupos, cada um com uma recomendação clara de uso e um nível de vigilância. Para o PGA em pediatria, aplicar essa lógica ajuda a criar protocolos, educar a equipe e monitorar o perfil de consumo do hospital.

Grupo 1: ACESSO (Access) – O Sinal Verde

Quem são: Pense neste grupo como sua primeira linha de defesa para as infecções mais comuns e menos graves. São antibióticos de espectro mais estreito, com menor potencial de induzir resistência, mais seguros e, geralmente, de menor custo. Exemplos clássicos na pediatria são as penicilinas (amoxicilina, penicilina G), cefalosporinas de primeira geração (cefalexina) e macrolídeos como a azitromicina para indicações específicas.

Quando usar: São a escolha ideal para a maioria das infecções comunitárias, como otite média aguda, faringoamigdalite bacteriana e pneumonias comunitárias não complicadas. A OMS tem uma meta global ambiciosa: que pelo menos 60% do consumo total de antibióticos em um país venha do grupo Acesso [1]. Você já parou para pensar qual é a porcentagem no seu hospital? Esse é um indicador poderoso para o seu PGA.

Na prática pediátrica: Ter protocolos claros que priorizem os antibióticos do grupo Acesso para as síndromes infecciosas mais prevalentes é uma das estratégias mais eficazes do PGA. É o básico bem feito, com um impacto gigantesco.

Grupo 2: OBSERVAÇÃO (Watch) – O Sinal Amarelo

Quem são: Aqui a coisa fica mais séria. O grupo Observação inclui antibióticos de espectro mais amplo, que são essenciais para tratar infecções mais graves, mas que têm um potencial muito maior de selecionar bactérias resistentes. São fármacos que precisam ser usados com… bem, com observação! Estamos falando das cefalosporinas de terceira e quarta geração (ceftriaxona, cefepime), fluoroquinolonas (com uso restrito em pediatria), carbapenêmicos (meropenem, imipenem) e a vancomicina.

Quando usar: São recomendados como primeira ou segunda opção para infecções hospitalares ou infecções comunitárias graves, onde os patógenos são provavelmente mais resistentes. O uso empírico de um antibiótico do grupo Observação deve ser sempre reavaliado em 48-72 horas (timeout), com o objetivo de descalonar para um do grupo Acesso assim que o patógeno e seu perfil de sensibilidade forem conhecidos.

Na prática pediátrica: O consumo de antibióticos do grupo Observação é um dos principais alvos de monitoramento e intervenção do PGA. Reduzir o uso inadequado desses agentes é fundamental para preservar sua eficácia. Você já viu isso na prática? Aquela prescrição de ceftriaxona para uma infecção de pele e partes moles não complicada que poderia ser tratada com cefalexina? É exatamente aí que o PGA atua.

Grupo 3: RESERVA (Reserve) – O Sinal Vermelho

Quem são: Este é o grupo dos “últimos recursos”. São os antibióticos que guardamos a sete chaves para tratar infecções por bactérias multirresistentes (MDR), quando nenhuma outra opção é viável. O uso deles deve ser extremamente restrito e, idealmente, sempre guiado por um infectologista. Aqui entram as polimixinas (colistina), cefalosporinas de nova geração com inibidores de beta-lactamase (ceftazidima-avibactam) e outros fármacos para patógenos-problema.

Quando usar: Apenas em situações de resgate, com infecção documentada por um microrganismo resistente a quase tudo. O uso empírico de um antibiótico de Reserva é uma raríssima exceção.

Na prática pediátrica: O simples uso de um antibiótico do grupo Reserva deve disparar um alerta no serviço de farmácia e no time do PGA. A pré-autorização para o uso desses fármacos é uma estratégia restritiva quase obrigatória em qualquer programa de stewardship. O objetivo é proteger esses medicamentos a todo custo, pois eles podem ser a última barreira entre a vida e a morte para um paciente com uma infecção gravíssima.

Como Usar a AWaRe no seu PGA Pediátrico

A classificação AWaRe não é só um conceito teórico, é uma ferramenta de gestão. Veja como aplicá-la:

  1. Mapeie seu Consumo: Classifique todos os antimicrobianos consumidos no seu hospital (usando a Curva ABC e os dados de DOT) dentro dos três grupos da AWaRe. Calcule a porcentagem de consumo de cada grupo. Sua meta é aumentar a proporção do grupo Acesso.
  2. Desenvolva Protocolos Baseados na AWaRe: Seus protocolos de tratamento para as principais síndromes devem indicar claramente qual antibiótico do grupo Acesso é a primeira escolha, e em que situações se deve usar um do grupo Observação.
  3. Crie Alertas: Configure alertas no sistema de prescrição eletrônica (se houver) para o uso de antibióticos dos grupos Observação e Reserva. Isso pode acionar uma avaliação automática pelo farmacêutico clínico ou pelo time do PGA.
  4. Eduque a Equipe: Use a simplicidade da AWaRe para educar os prescritores. O conceito do semáforo é intuitivo e fácil de lembrar, ajudando a criar uma cultura de prescrição mais consciente.

Conclusão: Simplicidade que Gera Grandes Resultados

A classificação AWaRe é a prova de que as ferramentas mais poderosas são, muitas vezes, as mais simples. Ao organizar os antimicrobianos em Acesso, Observação e Reserva, ela nos dá um framework claro para tomar decisões mais seguras, desenvolver protocolos mais inteligentes e monitorar nosso progresso na luta contra a resistência. Incorporar a lógica da AWaRe no seu PGA em pediatria não é apenas uma boa prática, é um passo essencial para um programa maduro e de alto impacto.

Que tal começar a usar a AWaRe hoje? Classifique os 10 antibióticos mais usados na sua unidade e veja como eles se distribuem. Você pode se surpreender! Compartilhe este conceito com sua equipe e ouça nosso episódio do InfectoCast para ver exemplos práticos de como a AWaRe está mudando o jogo.

Referências

[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.

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