A melioidose é uma infecção grave e potencialmente fatal causada pela Burkholderia pseudomallei, um bacilo Gram-negativo aeróbio encontrado principalmente em solos e águas superficiais de regiões tropicais. A doença pode se manifestar de forma aguda, subaguda ou crônica, e sua apresentação clínica é frequentemente confundida com tuberculose e outras infecções graves.
A alta taxa de mortalidade (até 40% em alguns países) e a capacidade da bactéria de sobreviver no ambiente e no hospedeiro tornam a melioidose um grande desafio clínico e um potencial agente de bioterrorismo (Categoria B do CDC). Este artigo revisa os aspectos microbiológicos, epidemiológicos, clínicos e terapêuticos da Burkholderia pseudomallei
Microbiologia
Características Gerais
- Bacilo Gram-negativo aeróbio, com morfologia de “alfinete de segurança” (coloração bipolar).
- Sobrevivência intracelular → evita fagocitose e induz apoptose de macrófagos.
- Resistência intrínseca a múltiplos antibióticos, incluindo penicilinas e cefalosporinas de primeira e segunda geração.
- Crescimento em meios seletivos:
- Ashdown’s media (preferível para amostras respiratórias).
- Meios seletivos para B. cepacia também podem ser utilizados.
Distribuição Geográfica
- Endêmica no Sudeste Asiático e norte da Austrália.
- Casos em expansão na América Latina, África, Caribe e Oriente Médio.
- Recentes isolamentos ambientais nos EUA (Mississippi, 2022).
- Aumento de casos durante períodos de chuvas intensas.
Epidemiologia e Fatores de Risco
- Transmissão:
- Inalação de aerossóis contendo a bactéria.
- Contato direto com solo ou água contaminada.
- Ingestão de água contaminada.
- Transmissão vertical e por leite materno já descritas.
- Fatores de risco para doença grave:
- Diabetes mellitus (50% dos casos).
- Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
- Alcoolismo, doenças renais crônicas e câncer.
- Imunossupressão (incluindo HIV e uso de corticosteroides).
Manifestações Clínicas
A melioidose pode imitar várias doenças infecciosas, incluindo tuberculose, leptospirose, febre tifoide e malária. Suas apresentações variam de infecção localizada a sepse fulminante.
1. Infecção Aguda
- Pneumonia (50% dos casos):
- Tosse, febre, dispneia, dor torácica e consolidações multifocais.
- Pode evoluir para abscessos pulmonares e derrame pleural.
- Sepse primária:
- Febre, cefaleia, disfunção multiorgânica.
- Mortalidade >40% se não tratada precocemente.
- Infecção de pele e tecidos moles:
- Ulceração cutânea com abscessos subcutâneos.
- Celulite necrosante.
2. Infecção Crônica (> 2 meses)
- Pneumonia crônica cavitária → “Tuberculose Vietnamita”.
- Abscessos hepáticos e esplênicos.
- Prostatite e abscessos prostáticos.
- Linfadenite supurativa (mais comum em crianças).
3. Infecções Graves
- Meningoencefalite → confusão mental, convulsões, déficits neurológicos.
- Osteomielite e artrite séptica.
- Aneurismas micóticos e pericardite.
Diagnóstico
1. Cultura e Gram
- Padrão-ouro, embora o crescimento possa demorar até 5-7 dias.
- Meios preferenciais: Ashdown’s media e B. cepacia-selective media.
- Gram: bacilos Gram-negativos com coloração bipolar (“alfinete de segurança”).
2. PCR
- Alta sensibilidade e especificidade, útil para casos graves.
- Não amplamente disponível fora de centros de referência.
3. Sorologia
- Teste de hemaglutinação indireta (IHA):
- Valor diagnóstico limitado devido à alta soropositividade em áreas endêmicas.
- Testes ELISA e IgM/IgG podem auxiliar na confirmação.
4. Diagnóstico Diferencial
- Tuberculose pulmonar (pneumonia cavitária).
- Leptospirose, febre tifoide, septicemia por Staphylococcus aureus.
Tratamento
Devido à alta mortalidade da doença, o tratamento é dividido em fase de indução (IV) e fase de erradicação (oral).
1. Fase de Indução (10-14 dias, IV)
- Ceftazidima 2 g IV 6/6h (droga de escolha).
- Meropenem 1 g IV 8/8h (preferível em infecções graves, SNC ou sepse).
- Alternativa:
- Imipenem/cilastatina.
- Cefoperazona/sulbactam.
Duração mínima:
- Pneumonia e sepse: 2-4 semanas.
- Abscessos profundos ou osteomielite: 4-8 semanas.
2. Fase de Erradicação (12 a 20 semanas, oral)
- Trimetoprima/sulfametoxazol (TMP/SMX) 160/800 mg VO 12/12h.
- Alternativa:
- Amoxicilina/clavulanato 875 mg VO 12/12h (menor eficácia e maior taxa de recidiva).
Total mínimo de tratamento:
- 90 dias para pneumonia ou bacteremia.
- 180 dias para osteomielite ou abscessos profundos.
3. Terapia Adjuvante
- Granulocyte-Colony Stimulating Factor (G-CSF) pode ser útil em sepse grave.
- Drenagem de abscessos hepáticos/esplênicos se necessário.
Prevenção e Controle
- Evitar contato com solo e água contaminada em áreas endêmicas.
- Uso de botas impermeáveis e luvas para trabalhadores rurais.
- Pacientes imunossuprimidos devem evitar viagens a áreas endêmicas.
- Profilaxia pós-exposição:
- TMP/SMX 160/800 mg VO 12/12h por 21 dias em casos de exposição confirmada.
Conclusão
A melioidose é uma infecção grave e de difícil diagnóstico, frequentemente confundida com tuberculose e outras infecções bacterianas. O tratamento exige antibioticoterapia prolongada com um esquema bem definido de indução IV e erradicação oral, sendo ceftazidima e meropenem as drogas de escolha na fase inicial. Prevenção e detecção precoce são fundamentais, especialmente em indivíduos imunossuprimidos expostos a áreas endêmicas.
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Referências
- Currie BJ. Melioidosis and B. pseudomallei: epidemiologia e tratamento. Curr Opin Infect Dis. 2022.
- Pitman MC et al. Tratamento e recaídas da melioidose. PLoS Negl Trop Dis. 2015.




