A Burkholderia mallei é um bacilo Gram-negativo aeróbio facultativo, não móvel e intracelular, causador da linfangite ulcerativa equina (Glanders), uma zoonose crônica e potencialmente fatal. É considerada um agente de bioterrorismo (Categoria A), altamente infeccioso por aerossol, e representa um risco significativo para humanos que entram em contato com equinos infectados.
A doença se manifesta em formas agudas e crônicas, com envolvimento pulmonar, cutâneo, septicêmico e neurológico. Este artigo revisa a microbiologia, epidemiologia, manifestações clínicas, diagnóstico e tratamento das infecções por B. mallei.
Microbiologia
Características Gerais
- Bacilo Gram-negativo aeróbio, não móvel e intracelular.
- Sobrevivência intracelular por modulação das vias imunes do hospedeiro.
- Resistência a fagocitose e evasão do sistema imunológico.
- Morfologicamente semelhante a B. pseudomallei (causadora de melioidose), mas com crescimento mais lento.
- Difícil detecção em coloração de Gram e melhor cultivada em meios com glicerol.
Reservatório e Transmissão
- Hospedeiros naturais: Cavalos, mulas e burros.
- Transmissão:
- Contato direto com secreções infectadas (nasais, úlceras cutâneas).
- Inalação de aerossóis (laboratórios e bioterrorismo).
- Inoculação percutânea (feridas abertas).
- Raramente transmitida de humano para humano.
Risco Ocupacional
- Veterinários, tratadores de cavalos e trabalhadores de laboratórios são grupos de risco.
- Infecções adquiridas em laboratório ocorrem frequentemente por aerossolização de culturas.
Manifestações Clínicas
A glanders pode apresentar formas agudas ou crônicas, dependendo da via de transmissão e do estado imunológico do hospedeiro.
1. Infecção Aguda
- Septicemia fulminante → alta mortalidade se não tratada.
- Pneumonia necrosante com abscessos pulmonares.
- Lesões ulcerativas nas vias aéreas superiores → pode evoluir para abscesso hepático e esplênico.
2. Infecção Crônica
- “Farcy” (forma cutânea):
- Múltiplos nódulos subcutâneos ulcerativos.
- Linfangite nodular com linfadenopatia regional.
- Doença pulmonar crônica:
- Nódulos pulmonares, consolidações, derrame pleural.
- Infecção sistêmica:
- Abscessos hepáticos, esplênicos e musculares.
- Neurológica:
- Envolvimento ocular e do sistema nervoso central (SNC).
Diagnóstico
1. Cultura Bacteriana
- Padrão-ouro, mas de crescimento lento.
- Amostras: sangue, pus, escarro, tecido afetado.
- Dificuldades:
- Semelhante a Pseudomonas spp.
- Necessita meios com glicerol.
- Risco laboratorial elevado → requer nível de biossegurança 3 (BSL-3).
2. PCR em Tempo Real
- Alta sensibilidade e especificidade.
- Método preferencial para rápida detecção.
3. Testes Sorológicos
- Hemaglutinação indireta pode ser usada (adaptado de testes para melioidose).
- ELISA pode detectar anticorpos anti-B. mallei.
4. Teste de Malleína (uso veterinário)
- Intradermorreação em equinos.
- Indução de reação inflamatória local se positivo.
Tratamento
1. Fase de Terapia Intensiva (10-14 dias)
- Meropenem 1-2 g IV 8/8h ou Imipenem/cilastatina 1 g IV 6/6h.
- Ceftazidima 2 g IV 8/8h.
- Alternativas: Gentamicina, ciprofloxacino, piperacilina/tazobactam.
2. Fase de Erradicação (3 a 6 meses)
- Trimetoprima/sulfametoxazol (TMP/SMX) 8-12 mg/kg/dia VO.
- Amoxicilina/clavulanato 875 mg VO 12/12h.
3. Alternativas
- Doxiciclina 100 mg VO 12/12h.
- Ciprofloxacino 500 mg VO 12/12h.
- Gentamicina (para infecções graves).
Controle de Infecção e Bioterrorismo
Medidas de Contenção
- Isolamento de pacientes com precaução respiratória (B. mallei pode ser transmitida por aerossóis).
- Evitar transporte de amostras via tubo pneumático para reduzir riscos de aerossolização.
Profilaxia Pós-Exposição
- Para pessoas expostas, considerar TMP/SMX ou amoxicilina/clavulanato por 21 dias.
Risco de Bioterrorismo
- B. mallei é altamente infecciosa por aerossol e pode ser usada como arma biológica.
- Procurar sinais de disseminação incomum (múltiplos casos sem histórico de exposição a equinos).
- Notificar imediatamente as autoridades de saúde e o CDC.
Vacinas
- Ainda em desenvolvimento.
- Estudos experimentais em camundongos indicam potencial proteção com vacinas atenuadas.
Conclusão
A Burkholderia mallei é um patógeno altamente infeccioso com potencial uso como arma biológica, exigindo diagnóstico rápido e tratamento precoce. Devido à sua alta taxa de mortalidade, a terapia deve incluir antibioticoterapia agressiva e prolongada, além de medidas rigorosas de biossegurança para evitar surtos e contaminação laboratorial.
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Referências
- Van Zandt KE, Greer MT, Gelhaus HC. Glanders: an overview of infection in humans. Orphanet J Rare Dis. 2013.
- Titball RW, Burtnick MN, Bancroft GJ, et al. Burkholderia mallei and bioterrorism concerns. Vaccine. 2017.
- CDC. Glanders treatment guidelines. Disponível em: https://www.cdc.gov/glanders/.





