A Anaplasma phagocytophilum é um patógeno intracelular obrigatório responsável pela Anaplasmose Humana Granulocítica (AHG), uma doença transmitida por carrapatos que ocorre principalmente na América do Norte, Europa e Ásia. No passado, era conhecida como Ehrlichiose Granulocítica Humana (EGH), até ser reclassificada devido a sua relação genética com outras espécies do gênero Anaplasma. A infecção é transmitida pelos mesmos vetores da Doença de Lyme, sendo frequentemente coinfectante com Borrelia burgdorferi e Babesia spp..
Microbiologia
A Anaplasma phagocytophilum pertence à família Anaplasmataceae, dentro da ordem Rickettsiales. Características microbiológicas incluem:
- Intracelular obrigatória: Multiplica-se em vacúolos dentro de granulócitos, formando estruturas denominadas morulas.
- Transmissão vetorial:
- Na América do Norte, a principal espécie vetora é o Ixodes scapularis (carrapato-de-patas-pretas) no leste, meio-oeste e costa oeste dos EUA.
- Na Europa, é transmitida pelo Ixodes ricinus.
- Reservatórios: Mamíferos de pequeno porte e cervos, especialmente o veado-de-cauda-branca.
- Outras espécies de Anaplasma:
- A. marginale: Patógeno bovino, sem casos humanos documentados.
- A. capra: Relacionado a infecções humanas moderadas a graves.
- A. bovis: Primeiramente relatado em humanos na Argélia (1936); recentemente identificado nos EUA.
Epidemiologia
A anaplasmose está amplamente distribuída nas regiões temperadas do Hemisfério Norte, com maior incidência nos EUA:
- Casos notificados em 2021 nos EUA: 6.729 (maior número já registrado).
- Regiões endêmicas: Nordeste, meio-oeste superior e costa oeste dos EUA.
- Expansão geográfica: Acompanhando a disseminação do Ixodes scapularis, similar à Doença de Lyme.
- Modos raros de transmissão:
- Acidentes ocupacionais com açougueiros que manipulam carcaças de veados infectados.
- Transfusão sanguínea (não há triagem sistemática nos bancos de sangue).
Cerca de 25% dos casos não relatam histórico de picada de carrapato, possivelmente devido ao pequeno tamanho das ninfas vetoras.
Manifestações Clínicas
A AHG geralmente apresenta-se como uma síndrome febril aguda, com sinais e sintomas semelhantes à Ehrlichiose Monocítica Humana (EMH) e outras infecções transmitidas por carrapatos.
Sintomas Comuns
- Início abrupto: Febre, calafrios, mialgia, fadiga intensa.
- Cefaleia intensa
- Náuseas, vômitos, dor abdominal
- Rash cutâneo: Menos comum (~10% dos casos), mais frequente em crianças.
Casos Graves
Pacientes com idade avançada, imunossupressão ou asplenia estão em maior risco de complicações severas, incluindo:
- Síndrome da angústia respiratória aguda (SDRA)
- Falência renal
- Anormalidades neurológicas (raro)
- Coagulopatias
Mortalidade:
- Baixa (~1%), mas aumenta em pacientes imunocomprometidos ou não tratados precocemente.
Coinfecções
A AHG pode ocorrer concomitantemente com outras infecções transmitidas por Ixodes scapularis:
- Doença de Lyme (Borrelia burgdorferi)
- Babesiose (Babesia spp.)
- Borreliose de Miyamotoi (Borrelia miyamotoi)
Diagnóstico
O diagnóstico laboratorial é fundamental, pois os sintomas podem ser inespecíficos.
Critérios Diagnósticos
- Casos confirmados:
- Sorologia (IFA): Aumento de 4x no título entre amostras de fase aguda e convalescente.
- PCR em sangue periférico (método mais sensível, 60-90%).
- Visualização de morulas em neutrófilos (20-75% dos casos).
- Casos prováveis:
- Sorologia com títulos entre 1:64 e 1:128 + clínica compatível.
- Exames laboratoriais sugestivos:
- Leucopenia com neutropenia (distinguindo-se da Ehrlichiose Monocítica Humana).
- Trombocitopenia
- Elevação de transaminases hepáticas (TGP/TGO)
Tratamento
O tratamento deve ser iniciado imediatamente em casos suspeitos, sem aguardar confirmação laboratorial, pois atrasos aumentam o risco de complicações.
Terapia de Primeira Linha
- Doxiciclina 100 mg VO/IV a cada 12h (mínimo de 5-7 dias, até 3 dias após resolução da febre).
- Se coinfecção com Borrelia burgdorferi, prolongar para 10 dias.
- Resposta clínica geralmente em <48h, exceto em pacientes críticos.
Alternativa (Gestantes e Intolerantes a Doxiciclina)
- Rifampicina 600 mg/dia VO/IV por 7-10 dias.
- Ineficaz para Lyme e Febre Maculosa, que devem ser excluídas antes do uso.
Terapia em Crianças
- Doxiciclina 2,2 mg/kg VO/IV a cada 12h (máximo 100 mg/dose).
- Seguro para crianças < 8 anos, sem risco significativo de discromia dentária em curto prazo.
Prevenção
- Medidas de proteção contra carrapatos: Uso de repelentes, roupas de manga longa e checagem diária da pele após exposição em áreas endêmicas.
- Profilaxia pós-picada de carrapato NÃO é recomendada para prevenir anaplasmose.
Conclusão
A Anaplasmose Humana Granulocítica é uma doença emergente, com incidência crescente em áreas endêmicas. O diagnóstico clínico é desafiador, pois pode mimetizar outras infecções transmitidas por carrapatos. A doxiciclina continua sendo a terapia padrão, com alta taxa de resposta e redução do risco de complicações. O reconhecimento precoce da doença e a instituição rápida do tratamento são essenciais para reduzir morbidade e mortalidade.
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Referências
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