O Anaplasma phagocytophilum é um patógeno intracelular obrigatório transmitido por carrapatos do gênero Ixodes e é o agente causador da anaplasmose granulocítica humana (HGA), anteriormente conhecida como erlichiose granulocítica humana (HGE).
A infecção ocorre predominantemente nos Estados Unidos, Europa e Ásia, sendo endêmica em áreas onde também se observa doença de Lyme e babesiose, pois compartilha os mesmos vetores.
Nos Estados Unidos, os principais vetores incluem:
- Ixodes scapularis (carrapato de perna preta) – transmissor na Costa Leste, Meio-Oeste e Nordeste.
- Ixodes pacificus – vetor na Costa Oeste.
A anaplasmose é uma doença emergente, com mais de 6.700 casos relatados nos EUA em 2021, o maior número registrado até então. A taxa de incidência está aumentando, refletindo mudanças ambientais e expansão da população de carrapatos.
Microbiologia
- A. phagocytophilum pertence à família Anaplasmataceae, dentro da ordem Rickettsiales.
- É um cocobacilo Gram-negativo, intracelular obrigatório, que infecta granulócitos (neutrófilos e eosinófilos).
- Multiplica-se dentro de vacúolos citoplasmáticos, formando morulas (estruturas semelhantes a cachos de uva).
- Sobrevive no hospedeiro suprimindo a resposta imune inata, bloqueando a apoptose dos neutrófilos.
Outras Espécies Relacionadas
- Anaplasma marginale – infecta bovinos.
- Anaplasma bovis – patógeno de gado, mas já identificado em humanos.
- Anaplasma capra – causa infecções moderadas a graves em humanos.
Epidemiologia
- Presente nas mesmas regiões endêmicas da doença de Lyme.
- Casos relatados na Europa e Ásia, incluindo China, Coreia e Japão.
- A transmissão ocorre predominantemente entre a primavera e o outono, quando os carrapatos estão mais ativos.
- 25% dos pacientes não relatam picada de carrapato, o que pode levar a atrasos no diagnóstico.
Outras formas de transmissão:
- Transfusão sanguínea – já documentada, sem testes de triagem obrigatórios.
- Exposição ocupacional – trabalhadores rurais e açougueiros manuseando carcaças de veados infectados.
Manifestações Clínicas
O período de incubação varia de 5 a 14 dias após a picada do carrapato.
Quadro Clínico Típico
- Febre alta e súbita.
- Mialgia intensa.
- Cefaleia frontal.
- Náuseas, vômitos e dor abdominal.
- Rash maculopapular em ~10% dos casos, menos frequente do que em erliquiose.
A maioria dos casos são leves a moderados, mas indivíduos idosos, imunossuprimidos ou asplênicos correm risco de evolução grave, com falência multiorgânica, síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e insuficiência renal.
Exames Laboratoriais
- Leucopenia com neutropenia (diferencia de erliquiose monocítica humana – HME).
- Trombocitopenia (frequente).
- Aumento de transaminases (ALT/AST).
- Co-infecções comuns:
- Borrelia burgdorferi (doença de Lyme).
- Babesia spp. (babesiose).
- Borrelia miyamotoi (infecção semelhante à febre recorrente).
Diferenciais importantes:
- Erliquiose monocítica humana (HME).
- Febre maculosa das Montanhas Rochosas (RMSF).
- Leptospirose.
- Hepatite viral aguda.
- Septicemia meningocócica.
- Endocardite.
Complicações Graves
- Síndrome hemofagocítica (HLH): quadro inflamatório grave que pode ser revertido com tratamento precoce.
- Coagulopatia e falência orgânica em casos não tratados.
Diagnóstico
Testes Diagnósticos
- PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) – padrão-ouro para diagnóstico precoce.
- Sorologia (IFA) – aumento de 4x no título de anticorpos entre amostras agudas e convalescentes.
- Esfregaço de sangue – mórulas em neutrófilos (20-75% dos casos).
A sorologia pode ser negativa na fase aguda, sendo recomendada a coleta após 3-4 semanas para confirmação.
Casos Prováveis
- Único título IFA ≥ 1:64.
- Achados clínicos compatíveis com exposição endêmica.
Tratamento
1. Primeira Linha (Adultos e Crianças)
- Doxiciclina 100 mg VO/IV 2x/dia por 5-7 dias (mínimo 3 dias após febre).
- Resposta clínica rápida (<48h) na maioria dos casos.
- Se co-infecção com Lyme, pode ser necessária terapia de 10 dias.
2. Alternativa (Gestantes e Alergia a Doxiciclina)
- Rifampicina 600 mg VO/IV 1x/dia por 7-10 dias.
- Não cobre doença de Lyme ou febre maculosa, devendo ser utilizada apenas após exclusão desses diagnósticos.
A Doxiciclina pode ser usada com segurança em crianças < 8 anos, pois não causa manchas dentárias em tratamentos curtos.
3. Terapia para Casos Graves
- Doxiciclina IV com monitoramento intensivo.
- Hemodiálise se insuficiência renal grave.
- Suporte ventilatório se SDRA.
Prevenção
- Evitar áreas endêmicas durante picos sazonais.
- Uso de roupas protetoras e repelentes contendo DEET ou permetrina.
- Inspeção diária do corpo para carrapatos e remoção adequada.
- Profilaxia pós-exposição não recomendada.
Conclusão
A anaplasmose granulocítica humana é uma doença emergente transmitida por carrapatos, frequentemente confundida com outras infecções febris. O diagnóstico precoce é essencial, especialmente em indivíduos imunocomprometidos. O tratamento com doxiciclina é altamente eficaz, com resposta rápida na maioria dos casos. A prevenção por controle de vetores e vigilância epidemiológica é fundamental para conter a expansão da doença.
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Referências
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