O que não se mede, não se melhora
Como saber se o seu Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos (PGA) em pediatria está realmente funcionando? Como provar para a diretoria do hospital que o programa está trazendo resultados? E como identificar os próximos alvos para as suas intervenções? A resposta para todas essas perguntas está na medição e no acompanhamento de indicadores de PGA em pediatria. A famosa frase de gestão, “o que não se mede, não se melhora”, nunca foi tão verdadeira. Os indicadores são o painel de controle do seu programa, transformando ações e intervenções em dados objetivos que mostram se você está no caminho certo. A Diretriz da ANVISA [1] dedica uma seção inteira a essas métricas, pois sem elas, o PGA navega às cegas.
A Pirâmide de Indicadores: Estrutura, Processo e Resultado
Os indicadores de PGA em pediatria podem ser organizados em uma pirâmide, que representa os diferentes níveis de avaliação do programa.
- Base da Pirâmide – Indicadores de Estrutura: Eles medem se você tem os recursos necessários para o programa funcionar. São os primeiros a serem medidos.
- Exemplos: O hospital possui um PGA formalmente instituído? Existe um time multidisciplinar definido? O hospital possui um farmacêutico clínico dedicado ao PGA? Existe um protocolo de terapia empírica para sepse neonatal?
- Meio da Pirâmide – Indicadores de Processo: Eles medem se as suas intervenções de stewardship estão sendo realizadas. Eles avaliam o “como”, o dia a dia do programa.
- Exemplos: Qual o percentual de adesão ao protocolo de profilaxia cirúrgica? Qual a taxa de aceitação das intervenções do farmacêutico na auditoria prospectiva? Qual o percentual de pacientes que tiveram seu tratamento reavaliado no timeout de 48h?
- Topo da Pirâmide – Indicadores de Resultado: Eles medem o impacto final do seu programa. São os mais importantes para mostrar o valor do PGA.
- Exemplos: Qual foi a redução no consumo de carbapenêmicos? Qual foi a variação nas taxas de resistência da Klebsiella pneumoniae? Houve redução nos custos com antimicrobianos? As taxas de infecção por C. difficile diminuíram?
Indicadores de Resultado: As Métricas de Ouro
Dentro dos indicadores de resultado, os que medem o consumo de antimicrobianos são os mais utilizados e padronizados.
Dias de Terapia (DOT – Days of Therapy)
O DOT é a métrica de consumo mais recomendada para hospitais. Ele é simples e reflete o número de dias que um paciente recebeu um determinado antibiótico.
- Como Calcular: Se um paciente usou ampicilina por 5 dias e gentamicina por 3 dias, ele contribui com 5 DOTs de ampicilina e 3 DOTs de gentamicina. Não importa a dose. Se ele usou dois antibióticos no mesmo dia, conta-se um DOT para cada um.
- Como Padronizar: Para comparar o consumo entre diferentes meses ou diferentes hospitais, o DOT é normalizado pelo número de pacientes-dia (ou leitos-dia). O resultado é expresso em DOT / 1.000 pacientes-dia. Isso te diz, a cada 1.000 dias de internação no seu hospital, quantos foram de uso de um determinado antibiótico.
- Vantagens: É fácil de calcular (a maioria dos sistemas de farmácia consegue extrair esse dado) e é a métrica mais intuitiva.
Duração da Terapia (LOT – Length of Therapy)
O LOT é uma variação do DOT. Ele conta o número de dias que um paciente esteve em uso de qualquer antibiótico. Se um paciente usou ampicilina e gentamicina no mesmo dia, ele contribui com apenas 1 LOT.
- Qual a Utilidade? O LOT é uma boa métrica para avaliar o impacto geral do seu programa. Uma redução no LOT total significa que os pacientes estão, em média, passando menos dias em uso de antibióticos, o que é um grande objetivo do stewardship.
Dose Diária Definida (DDD – Defined Daily Dose)
O DDD é uma métrica mais antiga, definida pela OMS, que representa a dose diária média de um fármaco para um adulto.
- Por que é Ruim para Pediatria? O DDD é totalmente inadequado para a pediatria. As doses em crianças variam enormemente com o peso e a idade, e não têm nenhuma relação com a dose padrão de um adulto. Usar DDD em pediatria gera dados distorcidos e sem sentido. A recomendação é clara: não use DDD em pediatria!
Colocando os Indicadores para Trabalhar
De nada adianta calcular essas métricas se elas ficarem guardadas em uma planilha. O poder dos indicadores de PGA em pediatria está em seu uso ativo.
- Crie um Painel de Controle (Dashboard): Monte um painel visual, com gráficos, que mostre a evolução mensal dos seus principais indicadores (ex: DOT de meropenem, DOT de vancomicina, LOT total, custo com antimicrobianos).
- Apresente os Resultados Regularmente: Mostre esse painel nas reuniões da CCIH, para a diretoria e para as equipes assistenciais. A transparência gera engajamento.
- Use os Dados para Direcionar Ações: O gráfico do DOT de piperacilina-tazobactam disparou nos últimos dois meses? É hora de focar as auditorias e a educação nesse antibiótico. A adesão ao protocolo de pneumonia caiu? É hora de fazer um novo treinamento com a equipe da pediatria.
- Faça Benchmarking (com Cuidado): Comparar seus dados com os de outros hospitais pediátricos pode ser útil para saber onde você está. Mas lembre-se que os perfis de pacientes podem ser muito diferentes. A comparação mais importante é com você mesmo, ao longo do tempo.
O GPS do seu Programa de Stewardship
Os indicadores de PGA em pediatria são o GPS que guia a jornada do seu programa. Eles te dizem onde você está, para onde você está indo e te ajudam a recalcular a rota quando necessário. Começar com indicadores de estrutura e processo é importante, mas o objetivo final é demonstrar o impacto nos indicadores de resultado, especialmente na redução do consumo (medido por DOT) e na melhoria dos perfis de resistência. Medir de forma consistente e usar os dados de forma inteligente é o que separa um PGA reativo de um PGA estratégico e de alto impacto.
Quais indicadores seu PGA mede hoje? Comece a calcular o DOT para os seus 3 principais antibióticos-alvo. Crie um gráfico simples mostrando a evolução do consumo nos últimos 6 meses. E compartilhe este guia para que todos no seu hospital entendam a importância de transformar dados em ação.
Referências
[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.




