A ciência da conexão humana no stewardship
Nós já falamos aqui sobre a auditoria prospectiva com feedback como a estratégia mais eficaz de um Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos (PGA) em pediatria. Mas qual é o segredo para que essa estratégia funcione na prática? A resposta não está em um algoritmo ou em um protocolo rígido, mas sim na qualidade da interação humana. É o que chamamos de modelo handshake (o “aperto de mão”). Este modelo enfatiza que o sucesso do stewardship não depende apenas do conhecimento técnico do time do PGA, mas de sua habilidade de se comunicar, de criar confiança e de estabelecer uma parceria genuína com a equipe prescritora. É a humanização do PGA, transformando uma potencial fiscalização em uma conversa colaborativa na beira do leito. Vamos aprofundar as técnicas de comunicação que fazem do handshake PGA pediatria um sucesso.
Os Pilares do Modelo Handshake: Mais do que Palavras, Atitudes
O modelo handshake se baseia em uma série de atitudes e técnicas de comunicação que visam quebrar barreiras e construir pontes. Ele é o antídoto para o modelo do “policial do antibiótico”.
1. Presença e Visibilidade: Quem não é visto, não é lembrado (nem chamado)
O time do PGA não pode ser uma entidade abstrata que vive em uma sala isolada. Ele precisa estar presente fisicamente nas unidades.
- Participe das Visitas: Faça o possível para participar das visitas multidisciplinares (rounds) na UTI ou na enfermaria. Mesmo que você fique em silêncio na maior parte do tempo, sua presença te torna parte da equipe. Você ouve os casos em tempo real e pode fazer suas intervenções no momento mais oportuno.
- Esteja Disponível: Deixe claro para as equipes que você é um recurso. “Se tiverem qualquer dúvida sobre um antibiótico, um ajuste de dose, me liguem”. Ser acessível e responsivo cria uma imagem de parceiro, não de auditor.
2. A Abordagem: A Primeira Impressão é a que Fica
O momento em que você aborda o prescritor para discutir um caso é o mais crítico. A forma como você inicia a conversa define todo o tom da interação.
- Peça Permissão: Nunca chegue apontando um erro. Comece de forma humilde e respeitosa. “Com licença, Doutora. Você tem um minutinho para conversarmos sobre o paciente Y?”. Pedir permissão mostra que você respeita o tempo e a autoridade do outro.
- Apresente-se e seu Propósito: “Eu sou o farmacêutico do PGA e estou revisando as prescrições de antimicrobianos para ajudar a otimizar a terapia”. Deixar claro seu papel e seu objetivo (ajudar) diminui a desconfiança.
- Escolha o Momento Certo: Não aborde um médico no meio de uma emergência ou quando ele está visivelmente sobrecarregado. Espere um momento mais calmo. A sensibilidade para o timing é fundamental.
3. A Comunicação: A Arte de Influenciar com Respeito
Uma vez iniciada a conversa, a forma como você apresenta sua sugestão é a chave para o sucesso do handshake PGA pediatria.
- Comece com um Fato Positivo (se possível): “Vi que o paciente melhorou muito da febre e do desconforto respiratório…”. Validar a conduta inicial do colega cria um clima positivo.
- Apresente os Dados de Forma Neutra: “…e a cultura do sangue chegou, mostrando uma bactéria sensível à ampicilina”. Apresente a nova informação como um dado objetivo.
- Faça uma Pergunta, não uma Ordem: Em vez de dizer “Você tem que trocar para ampicilina”, pergunte: “Com base nesse resultado, o que você acha de descalonarmos o esquema para ampicilina?”. A pergunta convida o outro a participar da decisão, preservando sua autonomia.
- Use a Primeira Pessoa do Plural (“Nós”): Fale em termos de equipe. “O que nós podemos fazer para otimizar o tratamento?”. Isso reforça a ideia de que o objetivo é comum.
- Foque no Benefício para o Paciente: O argumento final deve ser sempre o bem-estar do paciente. “Ao trocar para ampicilina, nós diminuímos o risco de selecionar resistência e é um tratamento mais seguro para ele”.
4. A Escuta Ativa: Entendendo o Outro Lado
O prescritor pode ter uma razão para não concordar com sua sugestão. É crucial ouvir e entender seus motivos.
- Ouça sem Interromper: Deixe o médico expor seu raciocínio. “Eu entendo que a cultura veio sensível, mas o paciente tem uma história de alergia à penicilina que não está no prontuário, por isso tenho receio”.
- Valide a Preocupação: Mostre que você entendeu o ponto dele. “Entendi. Sua preocupação com a alergia é muito pertinente”.
- Busquem uma Solução Juntos: “Nesse caso, que tal usarmos a cefazolina, que tem baixo risco de reação cruzada e ainda seria um descalonamento?”. A negociação faz parte do processo.
O Stewardship como um Ato de Relação
O modelo handshake nos ensina que o gerenciamento de antimicrobianos é, em sua essência, um ato de relacionamento. Ele prova que a adesão das equipes não é conquistada com protocolos impositivos, mas com confiança, respeito e comunicação eficaz. Construir essa parceria leva tempo e exige do time do PGA em pediatria não apenas competência técnica, mas também uma enorme dose de inteligência emocional e habilidades de comunicação. No final, o “aperto de mão” simbólico na beira do leito é o que sela o compromisso de todos com um único objetivo: o melhor e mais seguro cuidado para cada criança.
Como você avalia suas habilidades de comunicação? Pratique a escuta ativa na sua próxima interação com um colega. Tente usar a abordagem da pergunta em vez da afirmação ao fazer uma sugestão. E compartilhe este guia para que toda a sua equipe entenda que a forma como falamos é tão importante quanto o que falamos.




