Colocando ordem na casa dos problemas com antibióticos
No dia a dia de um hospital, os problemas relacionados ao uso de antimicrobianos são muitos e variados: uma dose errada, um espectro amplo demais, uma duração longa demais, uma indicação desnecessária. Para um time de PGA em pediatria que realiza a auditoria prospectiva, identificar esses problemas é a rotina. Mas como organizar, classificar e medir esses problemas de forma padronizada? Como saber qual é o tipo de problema mais comum no seu serviço para poder direcionar as ações educativas? Para isso, foi criada a ferramenta PRAT (Problemas Relacionados à Antimicrobianoterapia). Ela é um sistema de classificação que ajuda a colocar ordem na casa, permitindo que o PGA analise e gerencie suas intervenções de forma muito mais estruturada e inteligente.
O que é a Ferramenta PRAT?
A ferramenta PRAT é uma metodologia de classificação de problemas, riscos e danos associados ao uso de antimicrobianos, desenvolvida para ser usada na prática da farmácia clínica e do stewardship. Ela funciona como um checklist estruturado que o profissional (geralmente o farmacêutico) utiliza durante a revisão de uma prescrição para identificar e categorizar as inadequações.
O objetivo não é apenas encontrar o erro, mas entendê-lo. Ao classificar cada problema, o time do PGA em pediatria consegue gerar dados valiosos. Por exemplo, ao final de um mês, você pode descobrir que 30% de todas as intervenções realizadas foram relacionadas a “ajuste de dose para função renal”, enquanto apenas 5% foram sobre “descalonamento”. Essa informação é ouro! Ela te diz exatamente onde está o maior gap de conhecimento da sua equipe e onde suas ações educativas devem focar.
As Categorias da Ferramenta PRAT: Um Raio-X da Prescrição
A ferramenta PRAT geralmente divide os problemas em categorias que seguem a lógica do processo de decisão terapêutica. Embora existam algumas variações, a estrutura central costuma abranger os seguintes domínios:
Categoria 1: Problemas de Indicação
Refere-se à necessidade do antibiótico em si.
- PRAT 1.1 – Tratamento desnecessário: O paciente não tem uma infecção bacteriana que justifique o uso do antibiótico. Ex: Prescrever amoxicilina para uma bronquiolite viral.
- PRAT 1.2 – Ausência de tratamento necessário: O paciente tem uma infecção bacteriana, mas nenhum antibiótico foi prescrito.
Categoria 2: Problemas na Escolha do Antimicrobiano
Refere-se à seleção do fármaco.
- PRAT 2.1 – Espectro de ação inadequado: O antibiótico escolhido não cobre o patógeno mais provável ou o patógeno já identificado na cultura.
- PRAT 2.2 – Espectro de ação excessivamente amplo: O famoso “usar canhão para matar formiga”. O antibiótico é eficaz, mas existe uma opção de espectro mais estreito e igualmente eficaz. É o principal alvo do descalonamento.
- PRAT 2.3 – Duplicidade terapêutica: Uso de dois ou mais antibióticos que têm o mesmo espectro de ação, sem benefício adicional. Ex: Usar ceftriaxona e ampicilina ao mesmo tempo.
Categoria 3: Problemas na Dose, Intervalo ou Via de Administração
Esta é uma das categorias com maior número de intervenções em pediatria.
- PRAT 3.1 – Subdose ou Superdose: A dose em mg/kg está incorreta para o peso ou a idade.
- PRAT 3.2 – Intervalo inadequado: A frequência de administração está errada (muito curto ou muito longo).
- PRAT 3.3 – Ausência de ajuste para função renal/hepática: A dose ou o intervalo não foram corrigidos para um paciente com disfunção de órgãos.
- PRAT 3.4 – Via de administração inadequada: O paciente poderia usar a via oral, mas continua na via intravenosa (falha na terapia sequencial).
Categoria 4: Problemas na Duração do Tratamento
- PRAT 4.1 – Duração excessivamente longa: O tratamento está sendo prolongado além do recomendado pelas diretrizes, sem justificativa clínica.
- PRAT 4.2 – Duração excessivamente curta: O tratamento foi interrompido antes do tempo, com risco de recidiva.
Categoria 5: Problemas na Administração e Monitorização
- PRAT 5.1 – Incompatibilidades ou problemas de diluição.
- PRAT 5.2 – Ausência de monitorização terapêutica (TDM): Não foi solicitado o nível sérico de vancomicina ou aminoglicosídeo quando indicado.
- PRAT 5.3 – Interações medicamentosas: O antibiótico interage com outro medicamento que o paciente usa.
Como Usar a Ferramenta PRAT na Prática do PGA
- Integre ao Processo de Auditoria: O farmacêutico, ao realizar a auditoria prospectiva, deve ter um formulário (digital ou em papel) com as categorias da PRAT.
- Documente Cada Intervenção: Para cada paciente revisado, ao identificar um problema, o farmacêutico classifica-o usando o código da PRAT (ex: PRAT 2.2 para uma oportunidade de descalonamento). Ele também documenta se a sua sugestão foi aceita ou não pelo prescritor.
- Analise os Dados Periodicamente: Mensalmente ou trimestralmente, o time do PGA deve compilar esses dados. Gere gráficos que mostrem:
- O número total de intervenções.
- A distribuição dos problemas por categoria da PRAT.
- A taxa de aceitação das intervenções pela equipe médica.
- Os antibióticos mais associados a problemas.
- Transforme Dados em Ação: Use essa análise para direcionar o programa. Se o PRAT 3.3 (falta de ajuste renal) é o seu problema número 1, sua próxima ação educativa deve ser um treinamento sobre como usar a fórmula de Schwartz. Se a taxa de aceitação das sugestões de descalonamento (PRAT 2.2) é baixa, você precisa entender por que os médicos estão receosos e trabalhar para quebrar essa barreira.
Conclusão: Um Diagnóstico Preciso para o seu PGA
A ferramenta PRAT é para o PGA em pediatria o que um exame de imagem é para o clínico: ela permite um diagnóstico preciso dos “pontos fracos” no processo de uso de antimicrobianos do seu hospital. Ela transforma a percepção subjetiva (“acho que erramos muito a dose”) em um dado objetivo e mensurável. Ao sistematizar a identificação e a classificação dos problemas, a PRAT permite que o seu programa de stewardship seja muito mais estratégico, direcionando seus recursos e esforços para onde eles são mais necessários e, assim, maximizando o impacto na segurança do paciente e no combate à resistência.
Você já usa alguma forma de classificação para as intervenções do seu PGA? Adapte a ferramenta PRAT para a sua realidade e comece a usá-la na sua próxima auditoria. Apresente os dados compilados na próxima reunião da sua equipe e surpreenda a todos com um diagnóstico preciso dos seus principais problemas. E compartilhe este guia para que mais hospitais adotem essa metodologia inteligente de gestão.
Referências
[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.




