A primeira escolha, a mais importante
No universo da neonatologia, poucas decisões são tão críticas e dependentes do tempo quanto a escolha da terapia empírica para um recém-nascido com suspeita de sepse. O sistema imunológico do neonato é imaturo, a infecção pode progredir de forma fulminante, e não há tempo a perder. A primeira dose do antibiótico certo, na hora certa, pode ser a diferença entre a vida e a morte. Mas como fazer essa escolha sem ainda saber qual é a bactéria? A resposta está em um raciocínio clínico apurado, que diferencia a sepse de início precoce da de início tardio, e no conhecimento profundo da epidemiologia local. Para o PGA em pediatria, e especialmente no PGA em neonatologia, guiar a terapia empírica é a missão número um. Vamos desvendar como acertar nessa escolha desde o primeiro momento.
Sepse Precoce vs. Sepse Tardia: Dois Mundos, Dois Esquemas
A primeira e mais importante divisão no raciocínio da terapia empírica em neonatologia é o momento em que a infecção se manifesta. A fonte dos patógenos e, consequentemente, os agentes mais prováveis, são completamente diferentes.
Sepse de Início Precoce (Primeiras 48-72 horas de vida)
- A Origem do Mal: A sepse precoce é uma infecção transmitida verticalmente, ou seja, adquirida da mãe durante a gestação ou, mais comumente, durante a passagem pelo canal de parto. Os fatores de risco maternos são pistas importantes: bolsa rota por mais de 18 horas, febre materna intraparto, colonização por Estreptococo do grupo B (GBS), infecção do trato urinário materna.
- Os Suspeitos Habituais: Os patógenos aqui são os da flora vaginal e retal materna. Os dois grandes vilões são:
- Estreptococo do Grupo B (Streptococcus agalactiae – GBS): Historicamente, o principal agente de sepse e meningite neonatal precoce. A profilaxia intraparto com penicilina para mães colonizadas reduziu drasticamente sua incidência, mas ele ainda é uma causa importante.
- Escherichia coli: Com a queda do GBS, a E. coli (especialmente as produtoras de K1, um fator de virulência) assumiu o posto de principal causa de sepse neonatal precoce em muitos locais, e geralmente é mais grave.
- Outros, menos comuns, incluem outras enterobactérias e a Listeria monocytogenes (rara, mas grave, associada à ingestão de alimentos contaminados pela mãe).
- A Terapia Empírica Clássica: O esquema consagrado há décadas para a sepse precoce visa cobrir exatamente esses dois patógenos. A combinação de Ampicilina + um Aminoglicosídeo é o padrão-ouro.
- Ampicilina: Excelente cobertura para GBS e Listeria. Também tem ação contra algumas cepas de E. coli.
- Aminoglicosídeo (Gentamicina ou Amicacina): Potente ação contra bacilos Gram-negativos, incluindo a E. coli. A escolha entre genta e amica depende do perfil de sensibilidade local (seu antibiograma cumulativo!). A gentamicina é geralmente a primeira escolha, mas se as taxas de resistência forem altas, a amicacina é a alternativa.
- Sinergia: A combinação de ampicilina e gentamicina tem um efeito sinérgico contra o GBS, ou seja, juntos, eles matam a bactéria de forma mais eficaz do que separados.
Sepse de Início Tardio (Após 48-72 horas de vida)
- A Origem do Mal: A sepse tardia é uma infecção adquirida no ambiente, seja no hospital (nosocomial) ou, mais raramente, na comunidade. O recém-nascido, especialmente o prematuro, internado em uma UTIN, está exposto a uma flora completamente diferente, muito mais hostil e resistente.
- Os Suspeitos Habituais: Aqui, o leque de patógenos é muito mais amplo e depende totalmente da epidemiologia da sua UTIN. Os agentes mais comuns são:
- Staphylococcus coagulase-negativo (SCoN): Especialmente o Staphylococcus epidermidis. É a causa mais comum de sepse tardia associada a cateteres. Geralmente é resistente à oxacilina.
- Staphylococcus aureus: Pode ser sensível (MSSA) ou resistente à oxacilina (MRSA).
- Bacilos Gram-negativos Hospitalares: Klebsiella, Enterobacter, Serratia, Pseudomonas, Acinetobacter. O grande temor aqui é a presença de mecanismos de resistência, como a produção de ESBL (beta-lactamase de espectro estendido) ou de carbapenemases (KPC, NDM).
- Fungos: Candida albicans e outras espécies de Candida (como a C. parapsilosis ou a temida C. auris) são causas importantes de sepse tardia em prematuros extremos, com uso prolongado de antibióticos e nutrição parenteral.
- A Terapia Empírica: Depende do seu Mapa! A escolha aqui é muito mais complexa e obrigatoriamente deve ser guiada pelo seu antibiograma cumulativo da UTIN. Não existe um esquema único que sirva para todos.
- Esquema Padrão (em locais com baixa resistência): A combinação de Oxacilina + um Aminoglicosídeo (ou uma cefalosporina de 3ª geração como a cefotaxima) pode ser um ponto de partida. A oxacilina cobre os estafilococos sensíveis, e o segundo fármaco, os Gram-negativos.
- Quando Usar Vancomicina? A vancomicina não deve ser usada de rotina. Ela é reservada para UTINs com alta incidência de SCoN ou MRSA, ou para pacientes com quadro clínico muito grave (choque séptico). Iniciar vancomicina para todos é a receita para selecionar resistência (VRE).
- Quando Usar um Carbapenêmico (Meropenem)? O meropenem deve ser o último recurso. Ele é reservado para pacientes com suspeita de infecção por bacilos Gram-negativos produtores de ESBL (se a sua taxa for alta) ou para pacientes que não estão respondendo ao esquema inicial. O uso indiscriminado de meropenem é o caminho mais curto para a seleção de bactérias produtoras de carbapenemases (KPC), o nosso pior pesadelo.
- Quando Cobrir Fungos? A cobertura empírica com um antifúngico (como a anfotericina B ou o fluconazol) é considerada em prematuros de muito baixo peso com múltiplos fatores de risco e quadro de sepse grave sem resposta aos antibióticos.
Raciocínio Clínico e Dados Locais
A escolha da terapia empírica em neonatologia é um exercício que une o raciocínio clínico apurado (diferenciando sepse precoce e tardia) com a análise de dados epidemiológicos locais. Para a sepse precoce, o esquema Ampicilina + Aminoglicosídeo permanece como a base sólida. Para a sepse tardia, a decisão é uma arte que depende do mapa da mina do seu hospital: o antibiograma cumulativo. Um PGA em neonatologia atuante é o guardião desse mapa, garantindo que a primeira escolha de antibiótico seja a mais inteligente e segura possível para os pacientes mais vulneráveis do hospital.
Qual é o esquema padrão para sepse tardia na sua UTIN? Ele está alinhado com o seu perfil de sensibilidade local? Discuta o seu antibiograma cumulativo na próxima reunião da equipe. Crie um protocolo claro de terapia empírica para sepse precoce e tardia e divulgue-o. E compartilhe este guia para fortalecer o raciocínio clínico de todos.
Referências
[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.




