A perigosa passagem de bastão no cuidado
O percurso de uma criança no hospital é feito de transições: da emergência para a enfermaria, da enfermaria para a UTI, da UTI para a alta. Em cada uma dessas “passagens de bastão”, a lista de medicamentos do paciente pode se perder, ser mal interpretada ou alterada sem intenção. É nesse momento que ocorrem alguns dos erros de medicação mais comuns e perigosos. Para evitar isso, existe um processo de segurança chamado reconciliação medicamentosa. Em pediatria, onde as doses são complexas e os pacientes são vulneráveis, esse processo é ainda mais crítico. No contexto do PGA em pediatria, garantir que a antibioticoterapia seja corretamente mantida, alterada ou suspensa durante as transições de cuidado é fundamental. A Diretriz da ANVISA [1] destaca a reconciliação como uma barreira de segurança essencial.
O que é a Reconciliação Medicamentosa?
A reconciliação medicamentosa é o processo formal de se obter a lista mais completa e precisa possível dos medicamentos que um paciente está usando e compará-la com as prescrições médicas na admissão, transferência e alta hospitalar. O objetivo é identificar e corrigir discrepâncias, como omissões, duplicidades, doses erradas ou interações perigosas.
Você já viu isso na prática? Um adolescente asmático que usa um corticoide inalatório em casa é admitido por pneumonia. Na admissão, ninguém pergunta sobre seus medicamentos de uso contínuo. Durante a internação, ele começa a ter crises de asma, que poderiam ter sido evitadas se seu medicamento de base tivesse sido mantido. A reconciliação medicamentosa existe para prevenir exatamente esse tipo de erro.
Os 3 Momentos Críticos para a Reconciliação em Pediatria
O processo de reconciliação deve acontecer em todos os pontos de transição do cuidado.
1. Na Admissão Hospitalar
Este é o primeiro e mais importante ponto. O objetivo é criar a “Melhor Lista de Medicamentos Possível” (MLMP) do paciente.
- Como Fazer? O profissional responsável (idealmente o farmacêutico) deve entrevistar os pais ou cuidadores. Não basta perguntar “ele usa algum remédio?”. A abordagem deve ser detalhada:
- “Ele usa algum medicamento de uso contínuo, com receita?”
- “E sem receita? Vitaminas, suplementos, fitoterápicos?”
- “Usa alguma bombinha para asma? Algum spray nasal?”
- “Tem alguma alergia a medicamentos?”
- O Desafio em Pediatria: Muitas vezes, os pais não sabem o nome ou a dose exata do medicamento. Peça para ver as caixas, as receitas ou ligue para a farmácia da família. É um trabalho de detetive.
- A Reconciliação: Com a lista em mãos, o farmacêutico a compara com a prescrição de admissão do médico. Se o médico prescreveu um antibiótico que interage com um anticonvulsivante que a criança usa em casa, essa discrepância é identificada e discutida.
2. Na Transferência entre Unidades
Quando um paciente vai da enfermaria para a UTI, ou vice-versa, a prescrição é refeita. É um ponto de alto risco para erros.
- Como Fazer? O processo é o mesmo: comparar a lista de medicamentos que o paciente estava usando na unidade de origem com a nova prescrição na unidade de destino. O antibiótico foi mantido na dose correta? A heparina profilática foi suspensa sem querer?
3. Na Alta Hospitalar
Este é o último ponto de checagem, garantindo que o paciente vá para casa com as orientações corretas.
- Como Fazer? O médico prescreve as receitas para casa. O farmacêutico então reconcilia a prescrição de alta com os medicamentos que o paciente estava usando durante a internação e os que ele usava antes de internar.
- O Foco do PGA: Para o PGA em pediatria, este é um momento crucial. O paciente vai de alta com um antibiótico oral para completar o tratamento. A reconciliação garante que:
- A receita esteja clara: nome do antibiótico, dose em mL, frequência e duração do tratamento.
- Os pais recebam uma orientação verbal e escrita sobre como preparar e administrar o medicamento.
- Os medicamentos de uso contínuo que foram suspensos durante a internação sejam reiniciados, se for o caso.
O Papel do Farmacêutico e da Equipe Multidisciplinar
Embora a responsabilidade pela prescrição seja do médico, o profissional mais qualificado para liderar o processo de reconciliação medicamentosa é o farmacêutico clínico. Ele tem o conhecimento técnico sobre nomes de medicamentos, doses, apresentações e interações. No entanto, o processo é multidisciplinar. O enfermeiro, ao administrar os medicamentos, e os pais, ao fornecerem as informações, são peças-chave no processo.
Conclusão: Uma Rede de Segurança Contra Erros
A reconciliação medicamentosa em pediatria é uma rede de segurança robusta que protege nossos pacientes dos erros que podem ocorrer nas transições do cuidado. É um processo meticuloso, que exige tempo e dedicação, mas cujo retorno em termos de prevenção de eventos adversos é imenso. Para o PGA em pediatria, ela garante a continuidade e a segurança da antibioticoterapia do início ao fim da jornada do paciente no hospital. Não é uma tarefa burocrática, é um ato de cuidado e de alta responsabilidade.
Seu hospital tem um processo formal de reconciliação medicamentosa? Inicie uma discussão com a farmácia e a liderança de enfermagem sobre como implementar ou aprimorar esse processo. Crie um formulário padrão para a reconciliação na admissão. E compartilhe este guia para que todos entendam a importância vital dessa barreira de segurança.
Referências
[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.




