A força da liderança na ponta
Em todo hospital, em toda unidade, existem aqueles profissionais que são naturalmente referências para os colegas. São médicos, enfermeiros ou farmacêuticos que, mesmo sem um cargo de chefia, têm uma liderança informal, são respeitados e conseguem influenciar a prática do dia a dia. No universo do Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos (PGA) em pediatria, esses profissionais são verdadeiros tesouros. A Diretriz Nacional da ANVISA [1] os chama de facilitadores; a literatura internacional os apelidou de “champions”. Independentemente do nome, eles são a arma secreta para disseminar a cultura do uso racional de antimicrobianos e garantir que as boas práticas cheguem a cada canto do hospital. Vamos entender quem são esses campeões e como você pode recrutá-los para o seu time.
Quem é o “Champion” do PGA? O Perfil do Facilitador
O facilitador do PGA não é, necessariamente, o profissional com o currículo mais extenso ou o maior número de publicações. O que o define é um conjunto de atitudes e habilidades que o tornam um multiplicador natural das boas práticas. Você provavelmente já conhece alguns deles no seu hospital. O perfil do “champion” geralmente inclui:
- Credibilidade Clínica: É um profissional respeitado pelos pares por sua competência técnica e bom senso clínico.
- Paixão pelo Tema: Demonstra um interesse genuíno pelo controle de infecção e pelo uso racional de antimicrobianos. É aquele que sempre pergunta sobre o perfil de sensibilidade ou questiona a duração de uma antibioticoterapia.
- Habilidade de Comunicação: Sabe conversar com os colegas de forma respeitosa e construtiva. Não tem um tom professoral ou punitivo, mas sim colaborativo.
- Proatividade: Não espera as coisas acontecerem. Ele busca informação, sugere melhorias e está sempre aberto a novas ideias.
- Liderança Informal: É a pessoa a quem os colegas recorrem quando têm uma dúvida ou um caso difícil. Sua opinião tem peso.
Identificar esses profissionais é o primeiro passo. O time do PGA deve estar atento para mapear quem são os potenciais “champions” em cada unidade pediátrica, na UTIN, na UTIP e no pronto-socorro.
O Papel Estratégico dos Facilitadores no PGA em Pediatria
Os facilitadores do PGA não são membros do time operacional. Eles não fazem a auditoria prospectiva diária. O papel deles é outro, mas igualmente estratégico. Eles são a ponte entre o time do PGA e a realidade da unidade assistencial.
- Eles são os “Tradutores”: O “champion” ajuda a “traduzir” os protocolos e as recomendações do PGA para a linguagem e a rotina da sua unidade. Ele ajuda a adaptar as diretrizes para que elas sejam realistas e aplicáveis.
- Eles são os “Primeiros a Adotar”: Quando uma nova prática é proposta (como um novo protocolo de sepse), o “champion” é o primeiro a adotá-la e a mostrar aos colegas que ela funciona e é segura. Seu exemplo arrasta os outros.
- Eles são os “Olhos e Ouvidos” do PGA: Eles fornecem um feedback valioso e em tempo real para o time do PGA. São eles que vão dizer: “O novo protocolo não está funcionando bem no plantão noturno por causa disso e daquilo”. Essa informação é crucial para o ajuste e a melhoria contínua.
- Eles são “Educadores Pares”: A educação entre pares é extremamente poderosa. É muito mais provável que um médico aceite uma sugestão de um colega que ele respeita do que de alguém “de fora”. O “champion” faz essa educação de forma informal, no corredor, na hora do café, durante a passagem de plantão.
Como Treinar e Empoderar seus “Champions”
Uma vez identificados os potenciais facilitadores do PGA, não basta apenas dar um tapinha nas costas e dizer “parabéns, você é um de nós”. É preciso investir neles. A diretriz da ANVISA [1] recomenda que o time do PGA invista no treinamento formal desses profissionais.
- Convite Formal: Convide-os para uma reunião. Mostre que você reconhece o perfil de liderança deles e que gostaria que eles fossem parceiros do PGA. Oficialize o papel deles como “facilitadores” ou “médicos/enfermeiros de ligação” do PGA na unidade.
- Treinamento Específico: Ofereça treinamentos exclusivos para eles. Aprofunde os conceitos de farmacocinética/farmacodinâmica, interpretação de antibiograma, estratégias de stewardship e os protocolos do hospital. Dê a eles mais conhecimento do que a média.
- Acesso Privilegiado à Informação: Compartilhe com eles os dados do PGA em primeira mão. Mostre os resultados, as taxas de resistência da unidade deles, o impacto das intervenções. Faça com que eles se sintam parte do “círculo interno” do programa.
- Empoderamento: Dê a eles um canal direto de comunicação com o time do PGA. Incentive-os a trazer casos para discussão e a propor melhorias. Valorize a opinião deles nas reuniões da comissão.
- Reconhecimento: Reconheça publicamente o trabalho dos “champions”. Um elogio em uma reunião geral, um destaque no boletim do hospital ou um simples agradecimento podem fazer maravilhas pela motivação.
Multiplicando a Força do seu PGA
O time do PGA, por mais competente que seja, não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Os facilitadores do PGA, ou “champions”, são a solução para esse desafio. Eles são a capilaridade do seu programa, os tentáculos que levam a cultura do uso racional de antimicrobianos a cada leito, a cada plantão. Identificar, treinar e empoderar esses líderes locais é uma das estratégias mais inteligentes e custo-efetivas para garantir que seu PGA em pediatria tenha um impacto amplo, profundo e duradouro.
Quem são os “champions” da sua unidade? Faça uma lista e comece a observá-los em ação. Proponha ao seu time a criação de um programa de facilitadores. Compartilhe este artigo para mostrar o valor desses profissionais e comece a recrutar seu exército de aliados.
Referências
[1] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Diretriz Nacional para Implantação de Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos em Serviços de Neonatologia e Pediatria. Brasília, 2025.




