O Mycobacterium scrofulaceum é uma micobactéria não tuberculosa (MNT) de crescimento lento, pertencente ao Grupo 2 da classificação de Runyon (scotochromogen), caracterizando-se pela produção de pigmento amarelo-alaranjado independentemente da exposição à luz.
Historicamente, foi uma das principais causas de linfadenite cervical em crianças (“escrofulose”), mas hoje é raramente isolado em infecções humanas, sendo amplamente substituído pelo Mycobacterium avium complex (MAC).
O patógeno pode ser encontrado em água, solo e leite não pasteurizado, e sua transmissão ocorre por ingestão ou inalação ambiental.
Microbiologia
- Bacilo álcool-ácido resistente (BAAR).
- Crescimento lento (4-6 semanas).
- Scotochromogênico: produz pigmentação amarelada na luz e no escuro.
- Relacionado a M. simiae e ao recentemente descrito M. parascrofulaceum.
- Reservatórios:
- Solo e água potável.
- Alimentos contaminados (histórico de isolamento em leite não pasteurizado).
- Biofilmes hospitalares e equipamentos médicos.
Epidemiologia e Fatores de Risco
- Antes dos anos 1980, era uma das principais causas de linfadenite micobacteriana infantil.
- Atualmente, MAC é o principal agente de linfadenite micobacteriana em crianças.
- Grupos de risco:
- Crianças de 1 a 5 anos (linfadenite cervical).
- Indivíduos imunossuprimidos (HIV/AIDS, uso de imunobiológicos, transplantes).
- Pacientes com doença pulmonar crônica (DPOC, silicose).
- Exposição ocupacional a poeira e aerossóis contaminados.
Manifestações Clínicas
1. Linfadenite Cervical (Escrofulose)
- Forma mais comum de infecção em crianças.
- Acomete nódulos cervicais e submandibulares, geralmente de forma unilateral.
- Aumento progressivo dos linfonodos ao longo de semanas.
- Mínima dor e ausência de sinais sistêmicos (febre e mal-estar são raros).
- Pode evoluir para fistulização e drenagem crônica se não tratado.
- Diagnóstico diferencial:
- MAC (mais comum atualmente).
- M. tuberculosis (mais frequente em adultos, associado a sintomas sistêmicos).
- Doenças granulomatosas (sarcoidose, toxoplasmose, brucelose, linfoma).
2. Doença Pulmonar Crônica
- Rara, mas pode ocorrer em adultos com pneumoconioses ou DPOC.
- Infiltrados cavitários e doença pulmonar progressiva semelhantes à tuberculose.
- Alta taxa de coinfecção com MAC e M. kansasii.
3. Infecções Cutâneas e de Partes Moles
- Casos raros, descritos como nódulos ou ulcerações cutâneas.
- Pode mimetizar neoplasias fibrohistiocíticas ou lúpus vasculite.
4. Doença Disseminada (Rara)
- Casos isolados em pacientes imunossuprimidos (AIDS, transplantes).
- Pode afetar fígado, baço, medula óssea e SNC.
Diagnóstico
1. Cultura e Exames Diretos
- Baciloscopia BAAR positiva em secreções ou biópsias.
- Crescimento lento (4-6 semanas) em Lowenstein-Jensen ou Middlebrook 7H11.
- Diferenciação com MAC e M. tuberculosis pode ser difícil.
2. Diagnóstico Molecular
- PCR para 16S rRNA pode ajudar na diferenciação.
- M. parascrofulaceum pode ser erroneamente identificado como M. scrofulaceum.
3. Exames de Imagem
- TC de tórax: útil para avaliar doença pulmonar crônica.
- Ultrassonografia cervical: pode ajudar na diferenciação entre abscessos e linfonodomegalias inflamatórias.
Tratamento
Não há diretrizes específicas para M. scrofulaceum, e o manejo se baseia em relatos de casos e extrapolação de dados de MAC e M. tuberculosis.*
1. Linfadenite Cervical (Crianças)
- Excisão cirúrgica completa dos linfonodos é a abordagem preferida (cura em 95% dos casos).
- Evitar incisão e drenagem, pois pode levar à formação de fístulas crônicas.
Se cirurgia não for possível ou houver múltiplos linfonodos:
- Claritromicina 500 mg VO 2x/dia + Rifampicina 600 mg/dia por 6 meses.
- Alternativas: Azitromicina 500 mg/dia + Etambutol 15 mg/kg/dia.
2. Doença Pulmonar ou Disseminada
- Terapia combinada por pelo menos 12-18 meses:
- Isoniazida 300 mg/dia + Rifampicina 600 mg/dia + Etambutol 15 mg/kg/dia.
- Adição de Claritromicina 500 mg 2x/dia pode ser benéfica.
- Estreptomicina 15 mg/kg IM pode ser considerada em casos graves.
3. Infecções Cutâneas e Partes Moles
- Terapia combinada com Claritromicina + Rifampicina + Etambutol por ≥ 6 meses.
- Cirurgia pode ser necessária para remoção de lesões necrosadas.
Monitoramento e Prognóstico
- Linfadenite tratada cirurgicamente tem prognóstico excelente.
- Infecção pulmonar pode ser progressiva se não tratada.
- Monitoramento com culturas mensais é necessário para avaliar a resposta.
Prevenção e Controle
- Evitar contato com solo e água contaminados em pacientes imunossuprimidos.
- Monitoramento de fontes hospitalares de biofilmes.
- Não há vacina específica; BCG pode oferecer proteção parcial.
Conclusão
O Mycobacterium scrofulaceum é hoje uma causa rara de infecções humanas, substituído pelo MAC como principal agente da linfadenite cervical em crianças. Seu tratamento ainda é controverso, mas a excisão cirúrgica continua sendo o padrão para linfadenite, enquanto infecções pulmonares e disseminadas requerem terapia antimicrobiana prolongada.
🔍 Gostou do conteúdo? No app do InfectoCast você encontra protocolos, bulário, microbiologia, vacinação e muito mais em um só lugar.
👉 Clique aqui e conheça o app.
Referências
- Griffith DE, Aksamit T, Brown-Elliott BA, et al. An official ATS/IDSA statement: diagnosis, treatment, and prevention of nontuberculous mycobacterial diseases. Am J Respir Crit Care Med. 2007;175(4):367-416. [PMID:17277290].
- Wilson JW, Jagtiani AC, Wengenack NL. Mycobacterium scrofulaceum disease: experience from a tertiary medical centre and review of the literature. Infect Dis (Lond). 2019;51(8):602-609. [PMID:31264491].
- Suzuki S, Morino E, Ishii M, et al. Clinical characteristics of pulmonary Mycobacterium scrofulaceum disease in 2001-2011: A case series and literature review. J Infect Chemother. 2016;22(9):611-6. [PMID:27406572].
- Tortoli E, Chianura L, Fabbro L, et al. Infections due to the newly described species Mycobacterium parascrofulaceum. J Clin Microbiol. 2005;43(8):4286-7. [PMID:16082003].




