O Mycobacterium gordonae é uma micobactéria não tuberculosa (MNT) de crescimento lento, amplamente distribuída no meio ambiente e conhecida como “bacilo da água de torneira”. Frequentemente isolado em amostras clínicas, é considerado um contaminante laboratorial ou colonizador, sendo uma das MNTs menos patogênicas.
No entanto, M. gordonae pode, raramente, causar doença pulmonar, cutânea, peritoneal e disseminada, principalmente em pacientes imunossuprimidos.
Microbiologia
- Bacilo álcool-ácido resistente (BAAR).
- Crescimento lento (>7 dias em meio Löwenstein-Jensen ou Middlebrook 7H10).
- Ótima temperatura de crescimento: 25°C.
- Scotochromogênico: forma colônias amarelo-laranja quando exposto à luz.
- Resistência natural a etambutol (1 mg/L) e isoniazida (10 mg/L).
- Reservatórios ambientais:
- Água potável e de torneira.
- Solo, piscinas e leite não pasteurizado.
- Equipamentos hospitalares (máquinas de gelo, sistemas de broncoscopia).
Epidemiologia e Pseudoepidemias
- Comumente isolado em laboratórios, sendo 99% das detecções representando contaminação.
- Pseudoepidemias hospitalares documentadas devido à contaminação de água, gelo e equipamentos médicos.
- Casos autênticos de infecção são extremamente raros, ocorrendo quase exclusivamente em imunossuprimidos (HIV/AIDS CD4 < 50, malignidades, iatrogenia).
Manifestações Clínicas
1. Doença Pulmonar (Rara)
- Pode ser um colonizador assintomático em pacientes com bronquiectasias ou DPOC.
- Critérios para suspeita de infecção verdadeira:
- ≥3 amostras respiratórias positivas em dias diferentes.
- 1 amostra com BAAR positivo.
- Sintomas respiratórios persistentes e achados radiológicos compatíveis.
2. Infecções Cutâneas e de Tecidos Moles
- Extremamente raras, descritas após procedimentos invasivos ou trauma.
- Relatos de abscessos subcutâneos e úlceras crônicas.
3. Infecção Peritoneal
- Relatada em pacientes submetidos à diálise peritoneal.
- Sintomas incluem febre, dor abdominal e ascite turva.
4. Doença Disseminada
- Casos raros em imunossuprimidos severos (HIV com CD4 < 50, transplantados, câncer).
- Pode afetar fígado, baço e medula óssea, semelhante à doença disseminada por MAC.
Diagnóstico
1. Cultura e Identificação
- Crescimento lento em meios seletivos (>3 semanas).
- Coloração BAAR positiva, mas frequentemente um achado incidental.
- PCR e sequenciamento de 16S rRNA são necessários para diferenciação de outras MNTs.
2. Diagnóstico Diferencial
- Mycobacterium avium complex (MAC).
- Mycobacterium kansasii.
- Mycobacterium fortuitum.
Tratamento
⚠ Não há consenso sobre tratamento, pois a maioria dos isolamentos representa contaminação ou colonização.
1. Quando tratar?
- Doença pulmonar confirmada com múltiplas culturas positivas e sinais radiológicos progressivos.
- Infecções extrapulmonares em imunossuprimidos.
- Infecção disseminada comprovada.
2. Regime Antimicrobiano Sugerido
- Claritromicina 500 mg VO 2x/dia + Rifampicina 600 mg VO/dia + Etambutol 15 mg/kg/dia.
- Alternativas:
- Azitromicina 500 mg/dia pode substituir claritromicina.
- Levofloxacino 750 mg/dia pode ser útil, mas deve-se monitorar prolongamento do intervalo QTc.
- Linezolida 600 mg 2x/dia pode ser usada em casos refratários.
- Amicacina 15–25 mg/kg/dia IV pode substituir a estreptomicina.
3. Duração do Tratamento
- Pulmonar: pelo menos 12 meses após cultura negativa.
- Cutânea e partes moles: 3-6 meses.
- Disseminada: ≥12 meses.
4. Tratamento Cirúrgico
- Debridamento pode ser útil para infecções cutâneas e abscessos.
Prevenção e Controle
- Evitar uso de água de torneira em procedimentos invasivos.
- Monitoramento de fontes hospitalares de contaminação (broncoscópios, máquinas de gelo).
- Adesão a protocolos rigorosos de desinfecção.
Considerações Finais
- M. gordonae é um dos patógenos menos virulentos entre as MNTs.
- Quase sempre representa contaminação laboratorial, devendo-se confirmar o diagnóstico antes de iniciar tratamento.
- Antibioticoterapia só é indicada em casos de infecção comprovada, com clara evidência clínica e microbiológica.
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Referências
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