O Klebsiella granulomatis (anteriormente Calymmatobacterium granulomatis) é um bacilo Gram-negativo intracelular obrigatório da família Enterobacteriaceae, responsável pelo granuloma inguinale ou donovanose, uma infecção ulcerativa crônica da pele e mucosas genitais.
A doença é considerada uma infecção sexualmente transmissível (IST), embora sua transmissão exata ainda não seja completamente compreendida. Está associada a um risco aumentado de infecção pelo HIV devido às lesões ulcerativas persistentes.
Microbiologia
- Bacilo Gram-negativo pleomórfico, intracelular, com cápsula polissacarídica.
- Apresenta coloração bipolar em técnicas de Giemsa, Wright ou Leishman, conferindo um aspecto de “alfinete de segurança”.
- Não cresce em meios de cultura convencionais, sendo detectado apenas por métodos moleculares ou por microscopia direta de amostras clínicas.
Cultivo experimental:
- Pode ser cultivado em monócitos de sangue periférico expostos a soro fetal bovino.
- Algumas pesquisas obtiveram crescimento em células Hep-2 tratadas com cicloheximida e antibióticos (penicilina e vancomicina).
Epidemiologia
- Doença endêmica em regiões tropicais e subtropicais:
- Sudeste Asiático, Papua-Nova Guiné, África do Sul (KwaZulu-Natal), Índia, Brasil, Caribe e populações aborígenes da Austrália.
- Casos raros em países desenvolvidos.
- Afeta principalmente adultos jovens sexualmente ativos.
- Co-infecção com outras ISTs (ex.: sífilis, linfogranuloma venéreo, chancroid) é comum.
- Risco aumentado de HIV, pois as úlceras genitais facilitam a transmissão do vírus.
Transmissão e Patogênese
- A transmissão é presumidamente sexual, mas pode ocorrer por contato direto com lesões ativas.
- Não há evidências de transmissão por fômites ou secreções.
- Casos congênitos foram relatados, sugerindo possível transmissão materno-fetal.
- O mecanismo exato da disseminação da bactéria não é totalmente compreendido, mas acredita-se que ocorra por:
- Microabrasões na pele durante o contato sexual.
- Disseminação hematogênica, resultando em lesões extragenitais.
Manifestações Clínicas
O período de incubação varia entre 50 dias a 1 ano. O quadro clínico é paucissintomático, sem febre ou sintomas sistêmicos.
Formas Clínicas
- Ulcerogranulomatosa (mais comum)
- Úlcera não dolorosa, com bordas elevadas e base granulomatosa vermelha (“aspecto de carne viva”).
- Sangra facilmente ao toque.
- Pode evoluir para autoinoculação, formando lesões adjacentes (“lesões em espelho”).
- Hipertrófica (verrucosa)
- Lesão ulcerada com bordas elevadas, duras e irregulares.
- Pode ser confundida com condiloma acuminado (HPV).
- Necrosante
- Úlcera profunda e fétida, com destruição tecidual extensa.
- Forma mais grave, pode evoluir para gangrena.
- Cicatricial (Esclerótica)
- Úlceras secas, fibróticas, podendo levar a estenoses genitais (vagina, uretra, ânus).
- Pode causar elefantíase genital.
Complicações
- Pseudoelefantíase genital (mais comum em mulheres, até 5% dos casos).
- Autoamputação do pênis (casos graves e não tratados).
- Disseminação hematogênica:
- Lesões em fígado, baço, ossos e região orbitária.
- Risco de sepse e óbito.
- Associação com carcinoma espinocelular (ainda não comprovado).
Diagnóstico
1. Exame Direto (Padrão-Ouro)
- Microscopia com coloração de Giemsa, Wright ou Leishman:
- Identificação de corpos de Donovan dentro de macrófagos (bactérias encapsuladas, Gram-negativas).
2. Biópsia
- Indicação: quando há dúvida diagnóstica.
- Deve ser enviada para pesquisa de Klebsiella granulomatis, sífilis, linfogranuloma venéreo e chancroide.
3. Cultura
- Impraticável na rotina, pois a bactéria não cresce em meios convencionais.
4. Testes Moleculares
- PCR é promissora, mas não está disponível comercialmente.
5. Sorologia
- Pouco sensível e específica.
- Testes para HIV e sífilis devem ser realizados.
Tratamento
1. Regimes Preferenciais
- Azitromicina:
- 1 g VO 1x/semana ou 500 mg VO 1x/dia por ≥3 semanas.
- Manter até a cura completa das lesões.
2. Alternativas
- Doxiciclina 100 mg VO 2x/dia por ≥3 semanas.
- Eritromicina base 500 mg VO 4x/dia por ≥3 semanas.
- Trimetoprima/Sulfametoxazol 160/800 mg VO 2x/dia por ≥3 semanas.
Se não houver melhora em poucos dias, adicionar um segundo antibiótico.
Tratamento em Populações Especiais
1. Gestantes e Lactantes
- Azitromicina 1 g VO 1x/semana ou 500 mg VO 1x/dia.
- Alternativa: Eritromicina base 500 mg 4x/dia ou etilsuccinato 800 mg 4x/dia.
- Evitar: Doxiciclina (risco de dano dental fetal) e Trimetoprima/Sulfametoxazol (risco de kernicterus em RN).
2. Pacientes com HIV
- Mesmo esquema de tratamento, mas pode haver cicatrização mais lenta e recorrência.
- Recomenda-se associar gentamicina IV (1 mg/kg a cada 8h).
Prevenção e Controle
- Educação sexual e uso de preservativos.
- Triagem de parceiros sexuais recentes (mesmo assintomáticos).
- Diagnóstico diferencial rigoroso para evitar confusão com outras ISTs.
Conclusão
A donovanose é uma IST negligenciada, com diagnóstico muitas vezes tardio. O reconhecimento precoce e a terapia antibiótica adequada são essenciais para evitar complicações graves, como elefantíase genital e disseminação hematogênica. A azitromicina é a primeira escolha terapêutica, e a prevenção inclui rastreamento de ISTs e educação sexual.
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Referências
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