As bactérias do gênero Kingella são cocobacilos Gram-negativos facultativamente anaeróbicos, pertencentes à família Neisseriaceae. Embora sejam parte da microbiota normal da orofaringe e do trato geniturinário, podem atuar como patógenos oportunistas, principalmente em crianças pequenas.
A espécie mais relevante clinicamente é Kingella kingae, que pode causar artrite séptica, osteomielite, endocardite e bacteremia, especialmente em lactentes e pré-escolares. Outras espécies, como Kingella dentrificans e Kingella oralis, raramente causam doença invasiva.
Microbiologia
- Gram-negativo, mas pode reter o corante cristal violeta, sendo confundido com Gram-positivo em exames laboratoriais.
- Beta-hemolítico, catalase-negativo e não cresce em ágar MacConkey.
- Possui cápsula polissacarídica, que contribui para sua virulência e capacidade invasiva.
Fatores de Virulência
- Fímbrias tipo IV: facilitam a adesão ao epitélio.
- Autotransportador Knh: promove adesão às células do hospedeiro.
- Toxina RTX: facilita a quebra da barreira epitelial.
- Polissacarídeos de superfície: ajudam na resistência ao complemento e à ação de neutrófilos.
Colonização
- Presente na orofaringe e no trato geniturinário de humanos saudáveis.
- Taxas de colonização:
- 0-6 meses: 1%.
- 12 meses – 4 anos: 10-28% (maior prevalência em crianças em creches).
- Adultos: 1%.
Kingella kingae é o patógeno mais comum do gênero, enquanto K. dentrificans e K. oralis são menos frequentes.
Epidemiologia e Fatores de Risco
- Maior incidência em crianças entre 6 meses e 4 anos.
- Colonização orofaríngea precede a infecção invasiva.
- Fatores predisponentes:
- Infecções virais prévias (facilitam invasão sistêmica).
- Creches (transmissão entre crianças).
- Imunossupressão ou doenças subjacentes.
Em adultos, Kingella pode estar associada a endocardite infecciosa, especialmente em próteses valvares.
Manifestações Clínicas
1. Artrite Séptica e Osteomielite
- Principal causa de artrite séptica em crianças < 4 anos.
- Quadro clínico mais brando que artrites sépticas por S. aureus ou Streptococcus pyogenes.
- Sintomas:
- Febre baixa ou ausente.
- Dor moderada e pouca inflamação local.
- Monoartrite em joelho, quadril ou tornozelo.
2. Endocardite Infecciosa
- Mais comum em adultos.
- Pode afetar válvulas nativas e protéticas.
- Frequentemente associada a hemoculturas negativas.
- Mortalidade: pode ser elevada sem tratamento precoce.
3. Bacteremia e Infecções Respiratórias
- Em crianças, pode causar bacteremia sem foco.
- Em adultos, pode estar associada a infecções respiratórias e do trato urinário.
4. Outras Infecções
- Abscessos subcutâneos.
- Pericardite infecciosa (raro).
- Meningite (raro, mas descrito em lactentes).
Diagnóstico
Exames Laboratoriais
- Hemoculturas: podem ser negativas em endocardite, exigindo técnicas moleculares.
- Cultura de líquido sinovial: crescimento pode ser difícil devido ao caráter fastidioso da bactéria.
- PCR (Reação em Cadeia da Polimerase): alta sensibilidade para K. kingae em infecções osteoarticulares.
- Esfregaço Gram: pode ser inconclusivo devido à morfologia variável.
Diferenciais Importantes
- Artrite séptica bacteriana (S. aureus, Streptococcus spp.).
- Doença de Kawasaki (febre + artrite).
- Artrite reativa pós-infecciosa.
Tratamento
1. Opções Terapêuticas
- Primeira linha:
- Ceftriaxona 2 g IV a cada 24h.
- Cefotaxima 2 g IV a cada 8h.
- Cefepime 2 g IV a cada 12h.
- Alternativas (para alergia a β-lactâmicos):
- Aztreonam 2 g IV a cada 8h.
- Levofloxacino 750 mg VO/IV 1x/dia.
- Infecções osteoarticulares:
- Ceftriaxona IV por 2-4 semanas, seguido de amoxicilina VO por mais 2-4 semanas.
- Endocardite infecciosa:
- Ceftriaxona 2 g IV/dia por 4-6 semanas.
- Em casos graves, considerar adicionar gentamicina.
2. Resistência Antimicrobiana
- Resistência intrínseca a vancomicina e glicopeptídeos.
- Resistência variável à clindamicina.
Prevenção
- Não há vacina disponível.
- Medidas gerais:
- Identificação precoce de casos em creches.
- Controle de surtos por boas práticas de higiene.
- Monitoramento de crianças com infecções virais associadas.
Conclusão
As infecções por Kingella kingae são subdiagnosticadas, especialmente em crianças pequenas com artrite séptica de curso brando. O uso de PCR tem melhorado a detecção de casos. O tratamento precoce com cefalosporinas de terceira geração reduz complicações. A conscientização sobre sua epidemiologia e diagnóstico diferencial é essencial para evitar atrasos terapêuticos.
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Referências
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- Yagupsky P. Kingella kingae: from medical rarity to an emerging paediatric pathogen. Lancet Infect Dis. 2004;4(6):358-367. [PMID: 15172342].




