Aeromonas spp.:
O gênero Aeromonas compreende bacilos Gram-negativos facultativos anaeróbios, pertencentes à classe Gammaproteobacteria. Esses microrganismos são amplamente distribuídos em ambientes aquáticos, especialmente em águas doces e salobras de regiões de clima quente.
As principais espécies associadas a infecções humanas incluem:
- A. hydrophila (mais comum e clinicamente relevante).
- A. caviae e A. veronii biovar sobria (causas frequentes de diarreia do viajante).
- A. dhakensis (relacionada a diarreia em crianças e frequentemente identificada erroneamente em laboratório).
Essas bactérias são oxidase positivas, fermentam lactose e apresentam mobilidade flagelar.
Microbiologia e Epidemiologia
- Distribuição ambiental: Aeromonas está presente em solos e águas contaminadas, podendo ser transmitida por alimentos contaminados, principalmente peixes e frutos do mar.
- Mecanismos de virulência: Algumas espécies produzem toxinas enterotoxigênicas e fatores de invasão tecidual, contribuindo para gastroenterites e infecções invasivas.
As infecções por Aeromonas são mais comuns em indivíduos imunocomprometidos, diabéticos e portadores de doenças hepatobiliares, como cirrose.
Manifestações Clínicas
As principais doenças associadas às infecções por Aeromonas incluem:
1. Gastroenterite
O papel da Aeromonas como agente etiológico da diarreia ainda é controverso, mas pode se apresentar sob três formas clínicas:
- Diarreia aquosa autolimitada (forma mais comum).
- Diarreia disentérica (com sangue e muco, semelhante à shigelose).
- Diarreia crônica (menos comum, podendo persistir por semanas).
A infecção geralmente ocorre por ingestão de água ou alimentos contaminados. A gastroenterite pode ser grave em crianças e imunossuprimidos.
2. Infecções de Pele e Partes Moles
A Aeromonas pode causar infecções graves, especialmente após exposição de feridas à água contaminada.
- Celulite fulminante: ocorre rapidamente após trauma e pode progredir para fascite necrosante e gangrena.
- Infecção polimicrobiana: frequentemente associada a Staphylococcus aureus ou flora entérica.
- Lesões cutâneas: formação de bolhas hemorrágicas e ectima gangrenoso.
A infecção pode ser agressiva e requer intervenção cirúrgica precoce.
3. Bacteremia e Sepse
A bacteremia por Aeromonas é mais comum em pacientes com comorbidades, como:
- Doenças hepáticas (cirrose).
- Neoplasias.
- Diabetes.
A sepse pode estar associada a infecções gastrointestinais ou de pele e partes moles.
4. Outras Infecções
- Infecções osteoarticulares: osteomielite e artrite séptica.
- Meningite (rara).
- Endocardite (rara, mas associada a altas taxas de mortalidade).
- Peritonite: relatada em pacientes com cirrose.
5. Infecções Respiratórias
- Casos de pneumonia foram descritos, principalmente após quase afogamento, devido à aspiração de água contaminada.
Diagnóstico
O diagnóstico microbiológico inclui:
- Cultura de fezes: realizada em casos graves ou persistentes de diarreia.
- Cultura de feridas e hemoculturas: essenciais em infecções invasivas.
- PCR e testes moleculares: os testes multiplex não incluem Aeromonas, exigindo solicitação específica.
O diagnóstico diferencial inclui:
- Vibrio spp. (especialmente V. vulnificus em feridas expostas à água).
- Streptococcus pyogenes (em celulites agressivas).
- Staphylococcus aureus.
Tratamento
A escolha antibiótica deve considerar a produção de β-lactamases por algumas cepas, tornando necessário o uso de antimicrobianos eficazes.
1. Infecções de Pele e Partes Moles
- Infecção leve:
- Moxifloxacino 400 mg VO 1x/dia.
- Levofloxacino 500 mg VO 1x/dia.
- Infecção grave (fascite necrosante, sepses):
- Ciprofloxacino 400 mg IV a cada 8 horas ou
- Levofloxacino 750 mg IV a cada 24 horas.
- Doxiciclina 100 mg VO ou IV 2x/dia (cobre Vibrio spp. concomitante).
- Vancomicina 15 mg/kg IV a cada 12 horas (cobertura para MRSA, se necessário).
Alternativas:
- Carbapenêmicos (ertapenem, doripenem, meropenem).
- Ceftriaxona, cefepime ou aztreonam.
2. Gastroenterite
O tratamento é geralmente suporte clínico. No entanto, pode ser indicado antibiótico em casos graves:
- Ciprofloxacino 500 mg VO 2x/dia.
- Alternativa: TMP-SMX 1 DS VO 2x/dia (resistência descrita em Taiwan e Espanha).
3. Bacteremia e Sepse
- Ceftriaxona 2 g IV a cada 24 horas ou
- Fluoroquinolonas (ciprofloxacino 400 mg IV a cada 8h).
- Alternativa: Meropenem 1 g IV a cada 8h.
4. Infecções Osteoarticulares
- Cefepime 2 g IV a cada 12h + ciprofloxacino 400 mg IV a cada 8h.
Prevenção
- Higiene alimentar: evitar ingestão de peixes e frutos do mar contaminados.
- Cuidados com feridas: lavar feridas expostas à água com soro fisiológico e antisséptico.
- Uso de antibióticos profiláticos: algumas recomendações sugerem fluoroquinolonas em casos de exposição de feridas à água contaminada, embora não haja evidência robusta.
Uso de Sanguessugas Medicinais
- Aeromonas pode ser transmitida por sanguessugas utilizadas em cirurgia plástica e revascularização.
- Profilaxia recomendada:
- Ceftriaxona, cefuroxima ou fluoroquinolonas durante o uso das sanguessugas.
Prognóstico e Complicações
- Infecções de pele e partes moles graves: mortalidade pode atingir 90% se não tratada adequadamente.
- Bacteremia associada à gastroenterite: mortalidade entre 25-50% em pacientes imunocomprometidos.
- Necrotizing fasciitis: requer intervenção cirúrgica precoce e pode necessitar de amputação.
Conclusão
As infecções por Aeromonas variam de gastroenterites autolimitadas a infecções de pele e sepse graves. O diagnóstico precoce e a instituição rápida de antibioticoterapia são essenciais para reduzir a morbidade e a mortalidade associadas.
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Referências
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