A difteria é uma infecção bacteriana aguda potencialmente fatal, causada por cepas toxigênicas de Corynebacterium diphtheriae. A doença afeta principalmente as vias respiratórias superiores e pode levar a complicações cardíacas e neurológicas graves.
Apesar da vacinação ter reduzido drasticamente sua incidência, surtos ainda ocorrem em áreas com baixa cobertura vacinal, e casos esporádicos são relatados em viajantes retornando de regiões endêmicas.
Microbiologia
Características Gerais
- Bacilo Gram-positivo pleomórfico (aspecto em “letras chinesas” na coloração de Gram).
- Anaeróbio facultativo.
- Exclusivo de humanos (não há reservatórios animais).
- Cresce em meios seletivos como ágar Tinsdale e meio de Loeffler.
Fatores de Virulência
- Toxina diftérica:
- Produzida apenas por cepas que carregam o bacteriófago lisogênico tox+.
- Inibe a síntese proteica celular via inativação do fator de elongação EF-2.
- Afeta coração, sistema nervoso e rins, levando a complicações sistêmicas graves.
Espécies e Cepas Relacionadas
- Corynebacterium diphtheriae → Principal causador da difteria epidêmica.
- Corynebacterium ulcerans → Associado a zoonoses (contato com leite cru e animais).
- Corynebacterium pseudotuberculosis → Causador raro de infecções cutâneas.
Epidemiologia
- Casos raros nos EUA devido à vacinação (apenas 2 casos entre 2004-2015).
- Globalmente, a OMS relatou 10.107 casos em 2020, mas estima-se subnotificação.
- Fatores de risco:
- Falha na vacinação (não imunizados ou esquema incompleto).
- Viagens para regiões endêmicas (Índia, África, Sudeste Asiático).
- Contato com indivíduos infectados.
- Condições precárias de higiene e saneamento.
Manifestações Clínicas
1. Difteria Respiratória
- Período de incubação: 2-5 dias (máx. 10 dias).
- Sintomas iniciais:
- Febre baixa (< 39°C).
- Odinofagia, mal-estar.
- Linfadenopatia cervical severa (“pescoço de touro”).
- Formas clínicas:
- Faringoamigdaliana (mais comum) → Presença de pseudomembranas cinzentas aderentes, que sangram ao tentar removê-las.
- Laringotraqueal → Pode causar obstrução respiratória grave.
- Nasal → Mais branda, associada a secreção serossanguinolenta.
2. Difteria Cutânea
- Infecção crônica da pele → Úlceras dolorosas com bordas elevadas e exsudato cinzento.
- Mais comum em regiões tropicais e em populações vulneráveis (sem-teto, alcoólatras).
3. Complicações Sistêmicas
- Miocardite (10-25% dos casos):
- Bloqueios cardíacos, arritmias e insuficiência cardíaca.
- Mortalidade de até 60-90% nos casos graves.
- Neuropatia Diftérica:
- Paralisia do palato e pares cranianos.
- Polineuropatia axonal motora (desmielinização semelhante à Síndrome de Guillain-Barré).
Diagnóstico
1. Cultura e Testes Específicos
- Swab de orofaringe ou lesões cutâneas → Cultivo em meio seletivo (ágar Tinsdale).
- Teste de Elek (imunodifusão em gel) → Detecta produção da toxina diftérica.
- PCR (gene tox) → Detecta a presença do gene da toxina.
2. Testes Complementares
- Hemograma → Leucocitose com neutrofilia.
- Eletrocardiograma (ECG) → Monitoramento para miocardite.
- Sorologia → Pode ser usada para avaliar resposta vacinal.
3. Diagnóstico Diferencial
- Faringite estreptocócica grave.
- Epiglotite por Haemophilus influenzae.
- Mononucleose infecciosa (EBV, CMV).
Tratamento
1. Antitoxina Diftérica (DAT)
- Neutraliza toxinas circulantes antes de se ligarem às células.
- Disponível apenas via CDC nos EUA (contato: 770-488-7100).
- Doses:
- 20.000-40.000 U (doença < 48h, limitada à faringe).
- 40.000-60.000 U (doença extensa, > 72h).
- 80.000-120.000 U (doença grave, “pescoço de touro”).
2. Antibioticoterapia
- Primeira escolha:
- Penicilina G Procaína IM 600.000 U a cada 12h.
- Alternativa: Penicilina V 250 mg VO 6/6h por 14 dias.
- Se alergia a beta-lactâmicos:
- Eritromicina 40 mg/kg/dia VO ou IV por 14 dias.
- Carregadores assintomáticos:
- Eritromicina 500 mg VO 6/6h por 7-10 dias.
- Alternativa: Penicilina benzatina 1.200.000 U IM dose única.
3. Suporte Intensivo
- Monitoramento em UTI para prevenir complicações respiratórias e cardíacas.
- Ventilação mecânica se houver insuficiência respiratória.
- Reposição hidroeletrolítica e nutrição enteral.
Prevenção
1. Vacinação
- Vacinas disponíveis: DTaP (infância), Tdap (reforço em adultos).
- Esquema Vacinal:
- 5 doses na infância (2, 4, 6, 15-18 meses, 4-6 anos).
- Reforço a cada 10 anos (Td ou Tdap).
- Mulheres grávidas devem receber Tdap em cada gestação.
2. Controle de Contatos
- Quimioprofilaxia para contatos domiciliares e profissionais de saúde expostos:
- Eritromicina 500 mg VO 6/6h por 7 dias.
- Penicilina benzatina IM dose única.
- Isolamento respiratório até 48h após início do antibiótico.
Conclusão
A difteria é uma infecção grave, mas prevenível por vacinação. O reconhecimento precoce e a administração rápida da antitoxina diftérica e antibióticos são fundamentais para reduzir a mortalidade. A vacinação de reforço e a profilaxia de contatos são essenciais para o controle da doença, especialmente em surtos.
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Referências
- CDC. Diphtheria: Clinical Features and Treatment Guidelines. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2020.
- Havers FP, Moro PL, Hunter P, et al. Tdap Vaccine Recommendations. Clin Infect Dis. 2021.




