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Campylobacter jejuni

O Campylobacter jejuni é um bacilo Gram-negativo, espiralado e microaerofílico, sendo uma das principais causas de diarreia bacteriana no mundo. A transmissão ocorre predominantemente pelo consumo de alimentos contaminados, especialmente carne de aves mal cozida, água não tratada e leite não pasteurizado. A infecção pode levar a complicações neurológicas, como a Síndrome de Guillain-Barré.

Microbiologia

Características Gerais

  • Bacilo Gram-negativo em forma de espiral.
  • Microaerofílico (cresce em baixas concentrações de oxigênio).
  • Óxido positivo.
  • Temperatura ótima de crescimento: 42°C (semelhante à temperatura corporal das aves).
  • Sensível à dessecação e a pH ácido.

Transmissão

  • Ingestão de alimentos contaminados (especialmente frango e leite não pasteurizado).
  • Contato com fezes de animais (aves, bovinos, suínos e animais de estimação).
  • Surto nos EUA (2016-2018) associado a cães de pet shops contaminados.

Epidemiologia

  • Causa principal de diarreia bacteriana nos EUA.
  • Mais frequente no verão.
  • Incidência maior em crianças <5 anos e adultos >65 anos.
  • Maior gravidade em imunossuprimidos (HIV, neoplasias, hipogamaglobulinemia).

Manifestações Clínicas

1. Gastroenterite Aguda (2-5 dias de incubação)

  • Diarreia líquida ou sanguinolenta (presente em ~8% dos casos).
  • Febre, dor abdominal intensa (pode simular apendicite).
  • Náuseas e vômitos em alguns casos.

2. Infecções Sistêmicas

  • Bacteremia (rara, mais comum em imunossuprimidos).
  • Meningite.
  • Endocardite.
  • Abscessos hepáticos e esplênicos.

3. Complicações Pós-Infecciosas

  • Síndrome de Guillain-Barré (GBS):
    • C. jejuni é identificado em 20-50% dos casos de GBS.
    • Reação autoimune por mimetismo molecular.
    • Incidência de 1 a cada 1.000 casos de diarreia por Campylobacter.
  • Artrite Reativa (Síndrome de Reiter):
    • Poliartrite estéril, associada ao HLA-B27.
    • Predileção por tornozelos, joelhos e punhos.
  • Síndrome do Intestino Irritável Pós-Infecciosa.

Diagnóstico

1. Cultura de Fezes

  • Padrão-ouro, mas menos sensível que métodos moleculares.
  • Requer meio seletivo e incubação a 42°C.
  • Curvas em “asa de gaivota” na coloração de Gram (sensibilidade de 50-75%).

2. Testes Moleculares (PCR)

  • Maior sensibilidade e especificidade que a cultura.
  • Disponível em painéis multiplex de gastroenterites (ex.: BioFire GI Panel™).
  • Desvantagem: não fornece perfil de susceptibilidade antimicrobiana.

3. Testes Imunológicos

  • Detecção de antígeno fecal (sensível, mas menos utilizado).
  • Sorologia não é útil no diagnóstico agudo.

4. Diagnóstico Diferencial

  • Outras causas de diarreia invasiva:
    • Salmonella, Shigella, Escherichia coli O157:H7 (STEC).
    • Clostridioides difficile (especialmente em uso recente de antibióticos).

Tratamento

1. Gastroenterite

  • Autolimitada na maioria dos casos (duração de 1 semana).
  • Hidratação oral ou intravenosa é a principal medida terapêutica.
  • Antibióticos indicados para:
    • Febre alta e persistente.
    • Diarreia sanguinolenta.
    • Doença prolongada (>7 dias).
    • Pacientes imunossuprimidos, gestantes e neonatos.

Esquema preferencial:

  • Azitromicina 500 mg VO/dia por 3 dias (1ª escolha).

Alternativas:

  • Eritromicina 500 mg VO 12/12h por 5 dias.
  • Ciprofloxacino 500 mg VO 12/12h por 3 dias (evitar devido à crescente resistência).

2. Infecções Sistêmicas

  • Bacteremia e endocardite:
    • Gentamicina 5 mg/kg IV/dia (1ª escolha).
    • Alternativas: Imipenem 1 g IV 6/6h, Ceftriaxona 2 g IV 12/12h.
  • Meningite:
    • Ceftriaxona 2 g IV 12/12h ou Cloranfenicol (2-3 semanas).
  • Artrite Séptica/Osteomielite:
    • Carbapenêmicos ou aminoglicosídeos IV por 4-6 semanas.

Resistência Antimicrobiana

  • Resistência a fluoroquinolonas (ciprofloxacino) está >55% na Ásia e 28% nos EUA.
  • Macrolídeos ainda são altamente eficazes (<5% de resistência).
  • Multirresistência observada em surtos recentes nos EUA.

Prevenção

  • Higiene alimentar rigorosa:
    • Cozinhar aves a ≥ 75°C.
    • Evitar leite não pasteurizado.
    • Desinfetar tábuas de corte após manipulação de carne crua.
  • Higienização das mãos após contato com animais.
  • Evitar o uso indiscriminado de antibióticos em animais.

Conclusão

O Campylobacter jejuni é um dos principais patógenos gastrointestinais, com potencial para causar complicações neurológicas e autoimunes. A maioria dos casos é autolimitada, mas antibióticos podem ser necessários para pacientes graves ou imunocomprometidos. O uso racional de antimicrobianos é essencial, dada a crescente resistência aos fluoroquinolonas. Prevenção e boas práticas sanitárias são fundamentais para reduzir a incidência da infecção.

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Referências

  1. Shane AL, Mody RK, Crump JA, et al. Infectious Diarrhea Clinical Practice Guidelines. Clin Infect Dis. 2017.
  2. Tack DM, Marder EP, Griffin PM, et al. Incidence of Foodborne Infections – MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2019.

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