O gênero Borrelia compreende espiroquetas responsáveis por duas principais doenças humanas: Doença de Lyme e Febre Recorrente. As infecções são transmitidas por vetores artrópodes, como carrapatos duros (Ixodes) e carrapatos moles (Ornithodoros), além do piolho corporal em algumas formas epidêmicas.
Microbiologia
Principais Espécies
- Doença de Lyme:
- Borrelia burgdorferi sensu lato (EUA).
- B. afzelii, B. garinii, B. bavariensis (Europa e Ásia).
- Febre Recorrente (Relapsing Fever, RF):
- Febre Recorrente Epidêmica (B. recurrentis): transmitida por piolho corporal humano (Pediculus humanus).
- Febre Recorrente Endêmica:
- B. hermsii, B. parkeri, B. turicatae (EUA).
- B. duttonii (África).
- Novos agentes:
- B. miyamotoi (semelhante à anaplasmose humana).
- B. mayonii (descoberta em 2016, causando doença febril e artrite).
Vetores e Reservatórios
- Carrapatos moles (Ornithodoros spp.) → Febre recorrente endêmica.
- Carrapatos duros (Ixodes scapularis) → B. miyamotoi e Doença de Lyme.
- Piolhos corporais humanos → B. recurrentis (febre recorrente epidêmica).
Manifestações Clínicas
1. Febre Recorrente
Caracteriza-se por episódios febris intermitentes:
- Incubação: 7 dias.
- Fase febril: 3 dias de febre alta, calafrios, cefaleia, mialgia e náuseas.
- Fase afebril: 7-10 dias sem sintomas.
- Recorrência: novos episódios febris a cada 10 dias.
Epidêmica (B. recurrentis)
- Mais grave, com mortalidade de 5-40% sem tratamento.
- Complicações: miocardite, hemorragia, meningite, hepatoesplenomegalia.
Endêmica (B. hermsii, B. turicatae)
- Sintomas menos severos, menor risco de complicações.
Borrelia miyamotoi
- Quadro semelhante à anaplasmose (febre alta, trombocitopenia, elevação de transaminases).
- Pode causar meningoencefalite.
- Apresentação atípica com rash maculopapular em alguns casos.
2. Doença de Lyme
- Revisada separadamente no Guia de Doença de Lyme.
- Principais manifestações:
- Eritema migratório.
- Neuroborreliose precoce (paralisia facial, meningite asséptica).
- Cardite de Lyme (bloqueio AV).
- Artrite de Lyme (monoartrite do joelho).
Diagnóstico
1. Febre Recorrente
- Esfregaço sanguíneo (Giemsa/Wright):
- Espiroquetas são visíveis durante episódios febris.
- PCR (maior sensibilidade).
- Sorologia:
- Possível reação cruzada com testes de Lyme.
2. Borrelia miyamotoi
- PCR em sangue durante fase febril.
- Sorologia rGlpQ EIA (detecção tardia, não disponível comercialmente).
- Não detectada pelos testes padrão de Lyme (ELISA/Western blot).
3. Diferenciação de Outras Doenças
- Febre recorrente pode mimetizar leptospirose, malária, dengue, Bartonella e febres hemorrágicas virais.
Tratamento
1. Febre Recorrente
- Terapia preferencial:
- Doxiciclina 100 mg VO 12/12h por 5-10 dias.
- Alternativa: Eritromicina 500 mg VO 6/6h (gestantes).
- Casos graves: Ceftriaxona 2 g IV/dia por 10-14 dias.
- Jarisch-Herxheimer Reaction (JHR):
- Ocorre em 50% dos pacientes nas primeiras horas de antibiótico.
- Sintomas: febre, calafrios, hipotensão, taquicardia.
- Tratamento: suporte clínico com hidratação, antipiréticos e ventilação se necessário.
2. Borrelia miyamotoi
- Doxiciclina 100 mg VO 12/12h por 10-21 dias.
- Alternativas: Amoxicilina ou Ceftriaxona (casos graves).
- Não há falhas relatadas.
Prevenção
- Evitar áreas endêmicas e contato com vetores:
- Uso de repelentes com DEET.
- Inspeção corporal após exposição em áreas florestais.
- Controle de vetores:
- Desratização e vedação de moradias.
- Evitar cabanas infestadas por carrapatos em áreas montanhosas.
- Profilaxia pós-exposição para Febre Recorrente:
- Doxiciclina 200 mg VO dose única, especialmente em áreas endêmicas (estudo em militares israelenses mostrou eficácia).
Conclusão
As infecções por Borrelia spp. variam desde doenças febris autolimitadas até quadros neurológicos e cardíacos graves. O diagnóstico precoce é essencial, utilizando esfregaço sanguíneo, PCR e sorologia em contextos clínicos suspeitos. O tratamento com tetraciclinas é eficaz, embora a reação de Jarisch-Herxheimer exija monitoramento. Medidas preventivas são fundamentais para reduzir a exposição e o risco de infecção.
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Referências
- Auwaerter, P. G. Borrelia species – Johns Hopkins ABX Guide.
- Pritt BS, Mead PS, Johnson DKH, et al. Identification of Borrelia mayonii causing Lyme borreliosis. Lancet Infect Dis. 2016.
Krause PJ, Carroll M, Fedorova N, et al.Borrelia miyamotoi infection in California. PLoS One. 2018.




