As espécies de Arcanobacterium são bacilos Gram-positivos facultativos anaeróbicos, relacionados a infecções faríngeas e de tecidos moles. Embora menos comuns que os estreptococos do grupo A, são patógenos clinicamente relevantes, especialmente em adolescentes e jovens adultos. O Arcanobacterium haemolyticum é o principal patógeno do gênero associado a infecções humanas, com papel importante em faringites exsudativas e infecções cutâneas.
Além disso, outras espécies, como A. pyogenes e A. bernardiae, podem causar infecções em humanos, embora sejam mais comuns em animais. Este artigo revisa os aspectos microbiológicos, clínicos e terapêuticos das infecções por Arcanobacterium spp..
Microbiologia
Principais características
- Bacilos Gram-positivos, finos e curvados, podendo apresentar ramificações rudimentares.
- Beta-hemolítico (especialmente A. haemolyticum).
- Catalase-negativo, sem antígenos do grupo Lancefield (diferenciando-o de Streptococcus pyogenes).
- Melhor crescimento em meios enriquecidos com sangue humano ou equino, sob 5-10% de CO₂.
- Pode ser Gram variável e frequentemente confundido com outras bactérias da microbiota oral.
Espécies de Importância Clínica
- Arcanobacterium haemolyticum
- Principal espécie patogênica em humanos.
- Causa faringite exsudativa, infecções cutâneas e abscessos.
- Pode ser confundido com Streptococcus pyogenes pela hemólise beta.
- Arcanobacterium pyogenes (Trueperella pyogenes)
- Predominantemente zoonótico, associado a mastites em gado.
- Raramente causa infecção humana, mas pode estar presente em infecções de partes moles, abscessos e osteomielite.
- Arcanobacterium bernardiae (Trueperella bernardiae)
- Relacionado a infecções bacterêmicas, articulares e oculares.
- Já foi classificado como Corynebacterium spp..
Manifestações Clínicas
As infecções por Arcanobacterium spp. podem afetar diferentes sítios anatômicos. O A. haemolyticum é o mais comum em humanos.
1. Faringite Aguda
- 1-2% dos casos de faringite bacteriana em adolescentes e jovens adultos.
- Diferencial clínico com Streptococcus pyogenes:
- Exsudato tonsilar, linfadenopatia cervical.
- Rash escarlatiniforme em 50% dos casos, pruriginoso, poupando face, palmas e plantas (ao contrário da escarlatina).
- Tosse seca e odinofagia.
- Complicações:
- Abscesso peritonsilar ou retrofaríngeo.
2. Infecções de Pele e Partes Moles
- Feridas cirúrgicas e traumas infectados.
- Celulite e abscessos podem ser polimicrobianos.
- Infecção necrosante rara, mas documentada.
3. Infecções Sistêmicas Raras
- Endocardite infecciosa (casos esporádicos relatados).
- Sinusite e otite média.
- Septicemia e osteomielite em imunossuprimidos.
- Abscesso cerebral associado a trauma craniano.
Diagnóstico
Critérios Diagnósticos
- Cultura (método padrão-ouro):
- Placas de ágar sangue incubadas por >24h.
- Beta-hemólise em sangue humano/equino.
- Catalase-negativo, sem antígenos Lancefield (diferencia de estreptococos).
- Gram:
- Bacilos finos, curvados, podendo ter aspecto ramificado rudimentar.
- Sorologia/PCR:
- Útil em casos raros de bacteremia e abscessos profundos.
Diferencial Clínico
- Faringite estreptocócica (S. pyogenes).
- Faringite viral (EBV, enterovírus).
- Escarlatina (S. pyogenes).
- Síndrome de Lemierre (Fusobacterium necrophorum).
Tratamento
O A. haemolyticum é sensível à maioria dos antibióticos, exceto trimetoprima-sulfametoxazol.
Casos Graves (Bacteremia, Abscessos)
- Penicilina G: 12-18 milhões U/dia IV (dividido em 6 doses).
- Cefazolina: 1-2 g IV 8/8h.
- Adjuvantes:
- Alguns casos graves podem se beneficiar da adição de aminoglicosídeos.
- Drenagem cirúrgica de abscessos pode ser necessária.
Faringite e Infecções Leves
- Amoxicilina 500 mg VO TID.
- Claritromicina 500 mg VO BID (alérgicos a beta-lactâmicos).
- Alternativas:
- Azitromicina: 500 mg no primeiro dia, seguido de 250 mg/dia por 4 dias.
- Clindamicina: 300 mg VO TID.
- Cefuroxima: 250-500 mg VO BID.
Duração do Tratamento
- Faringite: 7-10 dias.
- Infecções profundas: 2-4 semanas (ajustar conforme evolução clínica).
Prevenção e Seguimento
- Monitorar resposta clínica: Falha no tratamento deve levantar suspeita para coinfecções ou resistência antibiótica.
- Recorrência rara, mas pode ocorrer em imunossuprimidos.
- Casos graves podem exigir seguimento com infectologista.
Conclusão
As infecções por Arcanobacterium spp. são subdiagnosticadas, mas devem ser consideradas no diferencial de faringites exsudativas e infecções cutâneas. O A. haemolyticum é o principal patógeno humano, frequentemente confundido com estreptococos beta-hemolíticos. O diagnóstico laboratorial exige incubação prolongada e observação cuidadosa das colônias. O tratamento com beta-lactâmicos ou macrolídeos é eficaz na maioria dos casos, com necessidade de antibioticoterapia prolongada e drenagem cirúrgica em infecções graves.
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Referências
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- Cortés-Penfield N, Kohli A, Weatherhead J, et al. Arcanobacterium haemolyticum CNS abscess. Infect Dis Clin Pract (Baltim Md). 2017;25(3):e9-e11.
Wong V, Turmezei T, Cartmill M, et al. Infective endocarditis by A. haemolyticum. Ann Clin Microbiol Antimicrob. 2011;10:17.




