As bactérias do gênero Aggregatibacter são patógenos oportunistas que fazem parte da microbiota normal da cavidade oral e do trato respiratório superior. Embora sejam comensais, podem causar infecções graves, especialmente em indivíduos com fatores predisponentes, como doenças cardíacas ou má higiene bucal. Essas bactérias pertencem ao grupo HACEK, um conjunto de organismos de crescimento lento frequentemente associados a endocardite infecciosa. Este artigo revisa as características microbiológicas, manifestações clínicas e tratamento das infecções por Aggregatibacter spp.
Microbiologia
O gênero Aggregatibacter pertence à família Pasteurellaceae e inclui espécies importantes no contexto clínico:
- Aggregatibacter actinomycetemcomitans
- Antigamente classificado como Actinobacillus actinomycetemcomitans
- Associado à periodontite agressiva e endocardite
- Crescimento lento, podendo levar >7 dias para isolamento laboratorial
- Muitas vezes encontrado em conjunto com Actinomyces spp.
- Aggregatibacter aphrophilus
- Principal espécie do gênero associada a abscessos cerebrais
- Previamente conhecido como Haemophilus aphrophilus
- Aggregatibacter paraphrophilus
- Causa rara de endocardite, geralmente na válvula mitral
- Relacionado a infecções do sistema nervoso central
- Aggregatibacter segnis
- Presente na microbiota oral, mas raramente causa doenças
- Aggregatibacter urae
- Relacionado a casos isolados de meningite
Essas bactérias podem ser facilmente isoladas em cultura, mas seu crescimento lento dificulta a detecção precoce, sendo fundamental que os laboratórios mantenham hemoculturas por períodos prolongados para identificação (Auwaerter, 2025).
Manifestações Clínicas
As infecções por Aggregatibacter spp. geralmente evoluem de forma insidiosa, podendo levar semanas ou meses para o diagnóstico. As principais síndromes associadas incluem:
1. Endocardite Infecciosa (EI)
- Principal causa de endocardite por HACEK, representando 1-3% dos casos
- Predominantemente em homens, especialmente com válvulas protéticas ou doença cardíaca reumática
- Sintomas inespecíficos, como febre prolongada, fadiga e perda de peso
- Manifestações embólicas, como nódulos de Osler, são comuns
2. Abscesso Cerebral
- A. aphrophilus é o agente mais frequentemente implicado
- Pode ocorrer secundariamente à bacteremia de origem odontogênica
- Diagnóstico confirmado por neuroimagem e cultura microbiológica
3. Infecções Odontogênicas e Periodontais
- A. actinomycetemcomitans tem papel fundamental na periodontite agressiva juvenil
- Pode levar à destruição do periodonto e perda dentária precoce
4. Infecções Musculoesqueléticas
- Pode causar osteomielite e artrite séptica
- Abscessos subcutâneos podem ocorrer em infecções polimicrobianas
5. Outras Infecções
- Meningite: Casos raros relacionados a A. urae
- Pneumonia: Extremamente rara, mas documentada em imunossuprimidos
- Endoftalmite: Pode ocorrer como complicação de bacteremia prolongada
Diagnóstico
O diagnóstico das infecções por Aggregatibacter spp. pode ser desafiador devido ao crescimento lento do microrganismo. As principais estratégias incluem:
- Hemoculturas: Devem ser mantidas por tempo prolongado; todas as culturas positivas de A. actinomycetemcomitans e A. paraphrophilus sugerem endocardite
- MALDI-TOF MS: Método rápido e preciso de identificação
- Ecocardiograma transesofágico (ETE): Indicado em casos suspeitos de endocardite
- Neuroimagem: Essencial para abscessos cerebrais
Tratamento
A maioria das cepas de Aggregatibacter spp. é sensível a beta-lactâmicos, pois a produção de beta-lactamase é rara. A escolha do antibiótico deve ser baseada no perfil de suscetibilidade.
1. Endocardite Infecciosa
Esquema preferencial:
- Ceftriaxona 2 g IV/dia por 4 semanas (6 semanas se válvula protética)
- Ampicilina 2 g IV a cada 4h, se suscetível
Alternativa para alérgicos a beta-lactâmicos:
- Ciprofloxacino 500 mg VO BID ou 400 mg IV a cada 12h
2. Abscessos e Outras Infecções
- Ampicilina, ceftriaxona, amoxicilina/clavulanato ou meropenem
- Duração varia de 4 a 6 semanas, dependendo do sítio da infecção
- Abscessos podem requerer drenagem cirúrgica
3. Profilaxia
- Pacientes com alto risco de endocardite devem seguir as recomendações da AHA para profilaxia antibiótica antes de procedimentos dentários invasivos (Baddour et al., 2015)
Prognóstico e Seguimento
- Mortalidade da endocardite por Aggregatibacter: 4% em séries modernas
- 25% dos pacientes necessitam de cirurgia cardíaca
- A maioria dos casos responde bem a antibioticoterapia prolongada.
Conclusão
As infecções por Aggregatibacter spp. são clinicamente relevantes, especialmente no contexto da endocardite infecciosa e abscessos cerebrais. O crescimento lento da bactéria torna o diagnóstico desafiador, exigindo monitoramento laboratorial prolongado. O tratamento eficaz envolve beta-lactâmicos por períodos prolongados, com boa resposta na maioria dos casos.
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Referências
- Baddour LM, Wilson WR, Bayer AS, et al. Infective Endocarditis in Adults: Diagnosis, Antimicrobial Therapy, and Management of Complications. Circulation. 2015;132(15):1435-86. DOI: 10.1161/CIR.0000000000000296.
- Fine DH, Patil AG, Velusamy SK. Aggregatibacter actinomycetemcomitans: Myths and Misunderstandings. Front Immunol. 2019;10:728. DOI: 10.3389/fimmu.2019.00728.
- Ambrosioni J, Martinez-Garcia C, Llopis J, et al. HACEK infective endocarditis: Epidemiology, clinical features, and outcome. Int J Infect Dis. 2018;76:120-125. DOI: 10.1016/j.ijid.2018.03.002.
- Yew HS, Chambers ST, Roberts SA, et al. Association between HACEK bacteraemia and endocarditis. J Med Microbiol. 2014;63(Pt 6):892-5. DOI: 10.1099/jmm.0.072678-0.





